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< capa da edição de 01 de abril de 1999




O festival das CPIs

Economia enfraquecida gera um turbilhão de ações políticas. Em clima favorável para suas manifestações o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães , se prepara para instalar a CPI ­ Comissão Parlamentar de Inquérito ­ do Judiciário. Com a iniciativa, deu um tiro no próprio pé: outro grupo político, desta vez o PMDB ( não o rebelde, o adesista ao governo) uniu-se ao PT, primeiro a levantar as suspeitas, através do deputado Aloísio Mercadante, quer instalar no Senado a CPI do Sistema Financeiro. A do Judiciário é novidade, e inesperada. Mas a do Sistema Financeiro vinha sendo prometida desde o início do primeiro governo Fernando Henrique, justamente pelo principal peão político de Antonio Carlos Magalhães, o deputado Benito Gama, hoje secretário de Estado na Bahia .

Foi quando começaram a se tornar evidentes as mazelas das instituições bancárias, com a falência do Banco Econômico. Para salvar as aparências, o deputado Benito Gama passou a falar sobre as reformas previstas para o sistema financeiro , das quais ele era o relator. Longe de ser uma CPI ­ nem imaginar, era o que menos convinha ao governo forte da época ­ a reforma estava na lista de outras tantas alinhavadas mas até hoje não costuradas. Não aconteceu. Vai acontecer agora, se realmente o PMDB ­ abespinhado por ser preterido em favor do PFL nas graças do governo ­ der força ao PT para ir fundo nas investigações. As denúncias agora envolvem onze bancos que teriam sabido com antecipação da queda do real, forrando de dólares seus cofres e lucrando escandalosamente em cima da falência da moeda brasileira.

Sabedor da iminência da CPI, o Banco Central se apressa em divulgar que vai fazer ­ lá vem o lugar comum ­ "uma investigação rigorosa" para apurar os fatos. Os desvios do dinheiro só agora passam a incomodar o Banco Central, gestor e controlador do sistema financeiro. Até onde conseguirão os políticos ­ a intenção é formar uma comissão mista entre Senado e Câmara Federal para estudar o assunto ­ levar adiante o embate é imprevisível. A teia de corrupção brasileira é notória até fora do Brasil . Quando o presidente Bill Clinton visitou o Brasil, no primeiro governo Fernando Henrique, o relatório feito pelos americanos sobre nosso país causou um estremecimento diplomático, justamente por ressaltar a corrupção existente no Brasil. O que vai prevalecer agora é que definirá se o relatório dos americanos exagerou ou foi fiel à realidade.