Post coitum triste
João Ubaldo faz do sexo o tédio supremo
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Paulo Polzonoff Junior


Em todas as propagandas, sexo. Em todos os programas de TV, sexo. Na Internet, sexo. Bill Clinton, sexo. Hoje, mais do que nunca, sexo é a força motriz da sociedade. O que antigamente era feito no escuro da alcova (ou atrás das portas, como me esclarece C.L.B.) hoje está estampado na primeira página de todos os jornais, para o deleite de todos. Monica Lewinski e seu felaccio globalizado são o exemplo mais evidente de uma época em que o sexo é tão-somente um produto na prateleira do mercado. Houve um tempo, porém, em que não era assim. É sobre esta época que nos fala C.L.B., protagonista de João Ubaldo Ribeiro em seu novo livro, A Casa dos Budas Ditosos, que integra a coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva.

Nestes tempos de sexo mercantilizado, um livro de João Ubaldo sobre o assunto era uma esperança. C.L.B., a personagem criada por João Ubaldo para falar do pecado da Luxúria, no entanto, é uma decepção. Seus relatos de pansexualismo são tão excitantes quanto aquela parede branca logo ali. Há apenas senso-comum em suas reflexões. Só há mérito mesmo na percepção, por parte do leitor, de que sexo por sexo, em qualquer tempo, é uma besteira que se sobrepõe a qualquer conceito moralmente discutível de hipocrisia. Definitivamente, não há nada mais tedioso do que artimanhas sexuais contadas à revelia.

A Casa dos Budas Ditosos é a “transcrição”, pelas mãos de João Ubaldo, de fitas deixadas à sua porta por uma tal de C.L.B., nas quais ela relata sua vida de devassa. Esta mulher, de 68 anos e nascida na Bahia, está à beira da morte e vê na encomenda de um livro sobre o pecado da Luxúria a João Ubaldo a sua chance de ter reveladas ao mundo suas estripulias sexuais. Nada além disso. Das reflexões socio-histórico-lítero-pornô de C.L.B., o que dizer? É bobagem pura e simples. C.L.B. defende o incesto com argumentos históricos, garante a supremacia da mulher sobre os homens ao longo da História por meio da escravização sexual não relatada nos livros, defende a hipocrisia de antigamente à hipocrisia de hoje, e mais um monte de inutilidades deste quilate.

Talvez mais irritante do que as intermináveis relações sexuais da protagonista tenha sido a forma como a editora quis vender seu produto. A orelha do livro prende-se somente ao caso das fitas entregues a João Ubaldo. A editora dá à brincadeira literária das fitas deixadas à porta uma conotação de mistério simplesmente inexistente. Acreditar nisso é como acreditar que, num romance epistolar, as cartas tenham sido mesmo trocadas. Aliás, a imprensa em muito contribuiu para criar esta aura de dúvidas em torno da originalidade ou não do livro, dizendo que João Ubaldo teria surpreendido a editora ao entregar os originais muito antes do prazo, insinuando, assim, que João teria tido uma ajuda ou uma forte inspiração vinda não de sabe de onde. Um golpe de marketing ingênuo, que só aos menos avisados pode atrair.

A Coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, conta ainda com os títulos O Mal Secreto, de Zuenir Ventura, Truco, Xadrez e outras Guerras, de José Roberto Torero, e O Clube dos Anjos, de Luís Fernando Veríssimo.


Paulo Polzonoff Junior é estudante de Jornalismo e colaborador de Fortuna e Virtude e outros veículos na Internet.
e-mail: polzonof@sulbbs.com ou polzonof@hotmail.com