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< capa da edição de 02 de fevereiro de 1999




Crescer é questão de disciplina.

"No passado, aos brasileiros divertia a idéia de que seu país não podia cair no abismo porque o Brasil era maior que o abismo . Hoje, muitos reconhecem que o abismo é suficientemente amplo para dar espaço ao Brasil e aos resto do continente". A advertência é feita por Joseph A. Page, historiador e professor de Direito da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos. Page é autor do livro "Brasil: o gigante vizinho", e um estudioso do comportamneto político brasileiro.

O historiador americano diz que seus compatriotas ficam no clichê que define o Brasil como uma república bananeira e cafeteira. E os povos hispânicos do continente pensam no Brasil como uma república futebolística e sonham com o poder estimulante de nossas areias brancas. Mas, segundo Page, nosso país tem uma "cultura dinâmica, complexa e muito diferente de seus vizinhos de hemisfério", assim como um conjunto particular de crenças, comportamentos, atitudes e estilos de vida.

Relata Page que desde a segunda guerra mundial "os brasileiros estão embarcados em uma viagem sem descanso por um circuito de montanha-russa". E ele dá mostras de conhecer bem a História brasileira. Cita o que chama de desenvolvimento eufórico do governo Juscelino Kubitschek, as presidências erráticas de Jânio Quadros e João Goulart, o temor e a repressão da ditadura militar dos anos 60, o embriagador crescimento dos anos 70, as ilusões no retorno da democracia, em 84, a impotente desesperança que se seguiu à queda do governo Fernando Collor. E arremata com o impulso de otimismo dos brasileiros pela promessa de recuperação antiinflacionária de Fernando Henrique Cardoso , cujo insucesso fez os brasileiros "descerem vertiginosamente até a borda do abismo".Æ

Emoção e temperamento

Segundo o historiador e professor norte-americano, os problemas brasileiros vão muito além da oscilação do dólar. É necessário um alcance maior na psicologia de nosso povo: "Essa tendência de subir e baixar abruptamente reflete a tendência dos brasileiros de cair em extremos emocionais , tal como sua paixão por tudo que seja grandioso , seu otimismo acerca do futuro, sua desprevenida exuberância e seus recorrentes lapsos de insegurança em si mesmos. Os peitos brasileiros estão marcados pela fé no inevitável destino do Brasil de ser uma potência mundial e, paralelamente, pela inescapável suspeita de que esse futuro dourado não chegará nunca, crenças que facilmente se acomodam nos ciclos de expansão e depressão econômica , de ditadura, de expressão e repressão cultural e política".

Page assinala que o Brasil é indisciplinado no seu comportamento político. Cita a igualdade de representação entre um deputado de São Paulo, por exemplo, que precisa de 200 mil votos para se eleger, e um eleito por Roraima, que necessita só de 5 mil votos . Essa "legislatura dócil" faz com que regiões mais desenvolvidas e povoadas estejam mal representadas, enquanto que políticos menos sofisticados e motivados principalmente por interesses locais ou pessoais possuam excessivo poder.

Contraste da riqueza

Falta ao Brasil, diz Page, um regime partidário coerente, baseado em princípios e ideologias, o que faz com que parlamentares mudem de partido como mudam de camisa. Cita também o historiador a falta de oportunidade que teve o Brasil diante da globalização, que forçou o país a adotar medidas externas "sem ter tido tempo de desenvolver um enfoque particularmente brasileiro" para tirar vantagem de seus pontos fortes.

Também não pôde o Brasil, diante da globalização, sustenta Joseph Page , desenvolver medidas que controlassem a "deficiente distribuição de riquezas", que faz com que 10 por cento da população dona das maiores fortunas monopolize quase a metade dos recursos nacionais, deixando só 1 por cento para os outros 10 por cento de brasileiros que vivem na extrema pobreza.

(Tradução e interpretação livre de texto publicado na imprensa argentina)