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< capa da edição de 05 de março de 1999




O país se atrasa, mas continua correndo.

O ano começou em março. Os dias pesados de janeiro, o mês irresponsável de fevereiro, com a semana do Carnaval, a expectativa pelo novo modelo que o Brasil vai seguir, agora que o Real desvalorizou de papel passado, contribuíram para segurar as atividades em todos os setores. A maior prova de que o ano está começando agora é a enxurrada de calendários de 1999 que estão chegados às casas das pessoas relacionadas em qualquer das listagens vendidas por aí ­ até a Receita Federal vende os nomes de seus cadastrados ­ através do que os publicitários chamam de mala direta: uma correspondência que você não precisa e que dá retorno de cinco em mil. Mas os calendários são benvindos . Ajudam o ano a passar mais depressa.

A pista do calendário não é a única a ser seguida. É neste mês de março que o país desentalou a designação oficial do novo presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Com Soros ou sem Soros ­ o megainvestidor global que foi ( ? ) patrão de Fraga , deve estar o governo brasileiro se sentindo protegido. Afinal, há uma máxima que diz : não lute contra o inimigo. Lucre com ele. Desse ponto de vista, a presença do chamado "homem do mercado" é uma paradoxal segurança. Só que a linguagem dos pretensos analistas econômicos fala em mercado como se fosse um ente simbólico, uma divindade poderosa que merece piras acessas , incenso e mirra. Pura bobagem. O mercado somos todos nós. Economia é ciência social , humana, e os números só servem para mostrar que, se tomados como patrões da economia se esfacelam ao primeiro movimento das pessoas que movimentam o dinheiro.

Esse fio do pensamento nos leva de volta aos calendários, símbolos de que o tempo ainda é determinante do comportamento econômico. Os mercados adquiriram vida entre nós. E as empresas tomaram conhecimento, antes tarde do que nunca, que é preciso estar presente na memória dos consumidores. Que melhor forma de fazer isso senão através de datas ­ números- que recordam compromissos, tempo investido, colocados bem à vista de gente comum, para quem um calendário é uma referência de datas, sem aludir que por trás dele está o mecanismo que gera a urgência econômica.