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< capa da edição de 06 de janeiro de 1999




O ágio de beca e batina

Quando poucos lucram muito e famílias empobrecem para dar uma instrução apenas razoável para seus filhos, fica uma pergunta a merecer resposta : precisa o ensino particular custar tão caro? A derrama que a classe média promove em favor das escolas e das universidades particulares não está a exigir a publicação anual de balanços oficiais, como é de hábito dentro das instituições financeiras? Por que as planilhas de custos das escolas particulares e das universidades milionárias não estão publicadas em edital , para que os financiadores ­ os alunos ou os responsáveis por eles ­ tenham condições de exigir o que lhes é de direito, como retorno em instrução de primeira linha, instalações adequadas , sistemas ( esse ditador implacável) computadorizados alimentados por cabeças inteligentes e de bom senso?

Num país em recessão, com uma classe média descapitalizada, pior, endividada, universidades brotam como árvores de dinheiro , prometendo o sonho global de uma educação múltipla , poliglota, cosmopolita, de ­ lá vai o lugar comum ­ primeiro mundo. Acabam dando um ensino improvisado, uma formação deficitária , uma deformação humanística ­ pois focam na competição o conceito de vitória ­ despejando num Brasil fragilizado milhares de jovens que pagaram caro seus diplomas, sem condições de retomarem, em médio prazo, o capital empregado.

Nomes aos bois? Há muitos : Pontifícia Universidade Católica (campeã dos preços altos, com um campus até em município da região metropolitana- terreno barato, paga o aluno para se locomover até lá ) , Universidade Tuiuti ( caótica ) , a agora Universidade Positivo ( mega projeto) , Colégio Bom Jesus ( comprou outras instituições católicas e aposto que já, já pede para ser universidade), Faculdades Espírita ( outra que pleiteia universidade , mesmo abrigando cursos de pós-graduação em barracões de madeira , mal ventilados , cachorros latindo e galos cantando. Bem, dá para reconhecer aí um ar caipira).

A indústria da instrução ( notem que não falei até agora em Educação. Esse é um processo demorado, elaborado, incompatível com a urgência de arrecadar dinheiro. Segundo o Dicionário Aurélio, o verbete educação, substantivo feminino, quer dizer : processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social; aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas; conhecimento e prática dos usos de sociedade ; o cabedal científico e os métodos empregados na obtenção de tais resultados ; instrução, ensino) passa, também, pelas instituições aqui não citadas . São todas atividades empresariais e, pela justiça das leis de mercado, visam lucro. Se assim não fosse, seus dirigentes teriam de ser interditados. Até onde a sociedade aguenta bancar essa explosão do ensino particular é que se pergunta.

Ainda esta semana: as instituições de ensino particular contam como ficaram grandes.

Sobre a PUC

A PUC- Pontifícia Universidade Católica, aterroriza os alunos com cobrança através de uma empresa chamada Esplanada (clique para comprovar). Uma central de cobrança sediada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Dinheiro paranaense engordando a receita gaúcha. É o que se pode chamar de um Mercosul dentro de nossas próprias fronteiras. Outras instituições utilizam a mesma empresa. A PUC desdenha a lei que fixa multa de 2 % ao mês e 1% de juro de mora ao mês. Utiliza uma "private légere" e joga juros mais altos que o comércio varegista.



Clique para confirmar

O valor real da fatura
bancária era de R$ 338,33.
Se a quantia fosse
debitada em conta,
e por ventura o correntista
tivesse o valor cobrado
em saldo, quase 34 mil
reais teriam ido parar no bolso
da Universidade Tuiuti.
Um clássico caso de culpa
do "sistema". A Tuiuti
cobra qualquer procedimento administrativo. Até para
entregar um atestado médico
o aluno precisa pagar.
Dez reais o último valor
egistrado.




A imensa quantidade de
propaganda ­ mala direta,
encarte em jornais,
horário nobre na TV ­
demonstra que o
Bom Jesus e o Positivo
estão com os cofres cheios. Propaganda é bom.
Alimenta os empregos
no setor e estimula a
criatividade. Em épocas de
crise as instituições de ensino
particulares mandam o
ecado de que, para elas,
tudo vai bem.