< Voltar para o jornal do dia
< capa da edição de 07 de janeiro de 1999




Professor e aluno. O ensino brasileiro desafia os dois.

Em 1960 , quarenta anos atrás, apenas 0,1% da população brasileira frequentava as universidades. A partir dos anos setenta houve uma aceleração no ensino superior e hoje o percentual de frequência subiu para 1,3% , o que significa cerca de um milhão e 800 mil brasileiros frequentando as universidades do país. Os dados são fornecidos pelo professor Constantino Comninos , de Economia Política, que concorda ser esse um número muito reduzido diante da totalidade da população jovem do Brasil.

Há acertos e deficiências no que é oferecido pelo ensino superior, analisa Comninos . O ensino brasileiro precisa de uma reformulação geral, opina. "Só que ela não é prioritária", lamenta. A prioridade viria, no entendimento dele, com um processo de desburocratização do ensino público ( "no setor privado há mais autonomia para decisões") , um zelo maior pelo patrimônio físico das instituições ( aqui a indignação pelo descaso dos bens públicos castiga o professor) e uma remodelação do ensino médio, capacitando o aluno ­ a outra ponta desse processo ­ para aprender melhor. "O que é que eu faço com este trabalho aqui , vinte folhas tiradas diretamente da Internet , sem uma leitura prévia, uma opinião, sequer uma referência à fonte ?" indaga Comninos , incumbido de dar nota ao que deveria ser um trabalho de pesquisa de uma equipe de alunos.

O cursinho é o maior crime inventado neste país, sentencia o professor. Ensina truques, macetes, camufla o aprendizado. O que o aluno precisa é aprender a estudar, avalia Constantino Comninos. Ele diz que o Brasil abandonou o estilo de ensino francês que seguia, algumas décadas passadas, e copiou o estilo americano. Uma aculturação ao sistema dos Estados Unidos até nisso. Muita coisa , em qualidade, se perdeu . "Se eu fosse secretário de Educação concentraria as atenções na Escola Normal. Aí se formam os professores de base". Para Comninos, ainda que pago, o ensino particular virou a opção dos universitários brasileiros. Nos anos 60, quando havia 100 mil estudantes de grau superior no Brasil, 90 mil deles estavam em escolas federais. Só 10 mil em escolas particulares. Hoje, um milhão e cem mil jovens brasileiros frequentam as faculdades particulares e 700 mil deles cursam a rede pública.

O ideal está longe.

E como seria um ensino de alta qualidade? A escola ideal , para o professor Constantino Comninos , teria um custo muito mais alto do que tem hoje. E iria exigir tanto do professor quanto do aluno. Ele cita em tópicos o que classifica como uma utopia nos dias atuais. Desfia , não pela ordem de importância, o que saciaria o Brasil no setor de ensino: 1- Salas de aula com não mais de 40 alunos; 2- professores , pelo menos, com mestrado e atualizados. A atualização é importante; 3- aulas baseadas em cenários de futuro. Projetar a realidade no tempo, preparando as evoluções, ou voltando ao passado, situando a História para o entendimento do tempo atual; 4- professores em tempo integral e dedicação exclusiva; 5- professores especialistas mas com conhecimentos generalizados .

Prossegue Comninos: 6- alunos em tempo integral . É muito pequena a carga horária de hoje; 7- disciplina intelectual . Aqui se volta à necessidade do saber aprender; 8- pedagogia de respeito ao patrimônio . O espaço físico, equipamentos, livros, são valores agregados do ensino; 9- divulgação de idéias e conhecimentos. 10- Auto-avaliação permanente. Um mergulho no ego , para uma avaliação constante .

Listada a fórmula do que seria um ensino ideal, o professor Constantino Comninos lembra ainda o que deveria ser fundamental: a informação. Muita, variada, tanto para o professor como para o aluno. E a leitura dos clássicos . Ninguém pode lecionar numa determinada área sem ter lido, e voltar neles sempre que possível, os pensadores clássicos de cada matéria.