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< capa da edição de 08 de abril de 1999




Um mundo para poucos
Marilena Braga

Sabem quantos milhões de clientes tem a Amazon .com, a maior livraria virtual do mundo? Seis milhões, que renderam em 98 em compras pela Internet , ao seu inventor, um faturamento de 253 milhões de dólares. Para este ano, está previsto ultrapassar um bilhão de dólares em vendas. Enquanto no mercado virtual as vendas de livros disparam, no mercado interno brasileiro a concorrência já ultrapassa os limites estaduais. A Ática Shopping, de São Paulo, maior editora de livros didáticos do país, está à venda. Para salvar a editora, antiga no mercado livreiro, foi construída, há cerca de quatro anos, a megalivraria, destinada a ser um supermercado da cultura . A resposta não foi tão favorável, e uma grande editora francesa pode assumir os negócios. Uma editora italiana também está na espera. Com o real desvalorizado, os títulos à venda ­ a literatura importada é a maior parte do negócio ­ foram para as alturas.

Alguém imaginou que livros ainda seria um mercado disputado dentro do Brasil? Dos vendedores de enciclopédias que faziam visitas porta a porta , até os viciados em livrarias, que passavam suas horas de ócio e solidão conferindo os últimos lançamentos das editoras, o negócio de livros explodiu no país , levando alguns à euforia e outros a sonhos temerários. Em Curitiba, para não extrapolar o circuito local, o livreiro Aramis Chain pretende terminar, até dezembro deste ano, a construção de um empreendimento que idealizou há alguns anos. Obstado pela prefeitura, que não concedia o alvará para a obra,de dois mil metros quadrados, tem agora sinal verde para bancar o projeto de mais de uma década. Pura teimosia ou visão empresarial?

Vale tudo pelo lucro

A concorrência é grande. Não só local. Os livreiros de Curitiba não têm imaginação e nem conhecimento das necessidades do mercado. Muitos livros importantes para o consumo de hoje ­ baseado na corrida atrás da globalização dos negócios, uma febre disparada pelos gurus da auto-ajuda ­ não fazem parte da lista dos títulos a venda. Sobra para os consumidores apelar para o mercado de São Paulo , o mais próximo de Curitiba.Caminhar mum mercado como esse é ter talento de equilibrista.

A maior parte das livrarias de Curitiba já viraram um misto de papelarias ­ que foi como começaram, há décadas atrás ­ e importadoras de quinquilharias da fronteira. As que se mantêm na venda de livros apenas ampliaram seus espaços com oferta de local para um cafezinho, bolachinhas ( não consigo chamar nossas bolachas paranaenses de "biscoitos") e outros mimos. As Livrarias Curitiba dão descontos, mandam entregar livros em casa, e se não tiverem o título disponível no momento, apelam para o concorrente. Mas têm vendedores pouco qualificados. Um varejão sem personalidade. Um pouco mais de treino no pessoal de atendimento, e podem encarar a concorrência, que não é muita, na verdade.

Já na Livraria do Chain o cliente vai à procura de um livro e sai com dois. Ele se empolga tanto com o que vende que faz o marketing de tudo. É onipresente no negócio. Pode seu um perigo. Se o cliente gasta mais do que pretende, há o risco de não voltar. A Livraria Guignone tem a vantagem do ponto. Em pleno coração da Rua das Flores ( Rua Quinze, para os curitibanos). Parou no tempo. Os saudosistas ainda se sentem à vontade lá . O cafezinho não é de graça. Quem quiser paga . A verba é curta para a livraria mais tradicional da cidade.

Perigo de fora

Tão logo a mídia impressa local noticiou que vai de vento em popa a construção do novo espaço cultural sonhado pelo livreiro Aramis Chain ­ serão quatro andares destinados a diversas áreas de livros e convívio, além de um estacionamento no sub-solo ( uma das razões porque a Prefeitura da cidade sempre foi renitente em conceder o alvará ) apareceram propagandas nos jornais da Livraria Cultura, de São Paulo, ofertando venda de livros pela Internet. Passo aqui o endereço do site, como castigo para os livreiros locais que não acompanham os lançamentos no mercado nacional: www.livcultura.com.br . Diz a Livraria Cultura que esta é a sua nova filial em Curitiba.

O desprezo pela Internet nos meios empresariais do Paraná pode levar bons negócios à falência antes mesmo de se firmarem. Não é apenas no meio cultural que a indiferença se estabelece. Se é verdade que um bom negócio não deve temer a concorrência, também é certo que é preciso saber de tudo que se passa com os concorrentes. Por esse motivo os grandes são grandes. E pela mesma razão alguns não saem do lugar. Os endereços eletrônicos são hoje economia de tempo, de combustível, de paciência, até de atritos pessoais, numa sociedade que vive à beira da estafa. Mas os empresários, fechados nas suas rivalidades corporativas, não enxergam um palmo à frente do nariz .