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Edição de 09 de janeiro de 1999



Itamar, a imprensa, os fatos e a democracia autoritária



"De todas as vocações do homem, o jornalismo é aquela em que há menor lugar para as verdades absolutas. A chama sagrada do jornalismo é a dúvida, a verificação de dados , a interrogação constante. Ali onde os documentos parecem instalar uma certeza, o jornalista instala sempre uma pergunta. Perguntar, indagar, conhecer, duvidar, confirmar cem vezes antes de informar: estes são os verbos capitais da profissão mais arriscada e mais apaixonante do mundo".

A frase acima, entre aspas, é parte de uma palestra proferida pelo jornalista e escritor argentino Tomás Eloy Martinez na conferência da Sociedade Interamericana de Imprensa , "Crônica e Reportagem: em busca de um jornalismo para o Século XXI".





É oportuno reproduzir alguns trechos da longa profissão de fé no jornalismo futuro que o argentino , autor de "Santa Evita", faz em uma bem cuidada ­ na pesquisa comparativa do jornalismo hispano-americano com sua vertente européia ­ e emocional declaração de amor à arte de narrar , a essência do que interessa ao leitor, segundo o jornalista argentino.

Fortuna e Virtude selecionou alguns trechos da palestra, buscando uma reflexão entre essa proposta de futuro e o estardalhaço que se viu na imprensa brasileira a propósito da atitude do governador de Minas Gerais, Itamar Franco, ao declarar que não vai pagar , por três meses, a dívida de seu estado. O que mais se viu, nos noticiários de televisão e matérias de jornais , foi o palpite , o escárnio, a indignação, o enfrentamento da opinião da imprensa com o fato em si. Narrativa nenhuma. A história da dívida ninguém contou. Nem a de Minas nem a de outros estados . A imprensa passou batida diante de um fato que poderia recontar toda a vulnerável situação econômica brasileira. Ao invés de ir fundo no endividamento dos estados, elevou Itamar Franco ao papel de herói caboclo às avessas. Foi um instrumento do poder, e não o contrapoder. O poder se serviu da imprensa como um prato fundo de uma suculenta feijoada.