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< capa da edição de 09 de janeiro de 1999




A reflexão de quem sabe

Voltemos à palestra do jornalista Tomás Eloy Martinez. Ressalte-se que não está transcrita no seu todo, mas selecionada em alguns trechos mais significativos . Diz ele: "A maioria dos habitantes desta infinita aldeia em que se converteu o mundo vê primeiro as notícias pela televisão ou pela Internet , ou a escuta pelo rádio, antes de tê-la nos jornais, se é que acaso as lê. Quando um jornal vende menos não é porque a televisão ou a Internet o venceram, mas sim porque o modo como os jornais dão a notícia é menos atraente. E não tem porque ser assim. A imprensa escrita, que investe fortunas em estar atualizada com as aceleradas mudanças da cibernética e da técnica, presta muito menos atenção ­ me parece ­ às mais sutis e igualmente aceleradas mudanças nas linguagens que o seu leitor prefere. Quase todos os jornalistas estão melhor formados que antes , mas têm ­ e seria preciso averiguar por que ­ menos paixão; conhecem melhor os teóricos da comunicação mas lêem muito menos os grandes novelistas de sua época".

Não estou preconizando que se escrevam novelas nos jornais. Nada disso, e menos ainda que se use a linguagem florida e adjetivada à que recorrem os jornalistas que se improvisam como novelistas da noite para o dia. Tampouco estou deslizando a idéia de que o mediador de uma notícia se converta no protagonista. Claro que não. Um jornalista que conhece o seu leitor jamais se exibe. Estabelece com ele , desde o princípio, o que eu chamaria de um pacto de fidelidades: fidelidade à própria consciência e fidelidade à verdade. A avidez do conhecimento do leitor não se sacia com o escândalo, mas com a investigação honesta; ela não é aplacada com golpes de feito, mas com a narração de cada fato dentro de seu contexto e de seus antecedentes. Ao leitor não se distrai com fogos de artifício ou com denúncias estrepitosas que se desvanecem no dia seguinte, mas sim se respeita com a informação precisa. Cada vez que um jornalista atira lenha ao fogo fátuo do escândalo , está apagando com cinzas o fogo genuíno da informação".

As sementes da narrativa

E segue a visão de Tomás Eloy Martinez: "Narrar tem a mesma raiz que "conhecer". Ambos os verbos têm sua remota origem numa palavra do sânscrito , "gnâ", conhecimento. O jornalsismo nasceu para contar histórias, e parte desse impulso inicial que era a sua razão de ser e o seu fundamento se perdeu agora. Dar uma notícia e contar uma história não são sentenças tão contraditórias como poderia parecer a primeira vista. Pelo contrário: na maioria dos casos são dois movimentos de uma mesma sinfonia. Os primeiros grandes narradores foram também grandes jornalistas. Entendemos muito melhor a peste que assolou Florença em 1347 através do "Decameron"de Boccaccio do que através de todas as histórias que se escreveram depois, ainda que dentre essas haja algumas que admiro, como "A Distant Mirror", de Barbara Tuchman. A lição de Boccaccio, como a de Dickens, a de Daniel Defoe, Balzac e Proust , pretende algo muito simples: demonstrar que a realidade não nos passa diante dos olhos como uma natureza morta, se não como um relato, no qual há diálogos, enfermidades, amores, além de estatísticas e discursos.

Não é por acaso que , na América Latina, todos, absolutamente todos os grandes escritores, alguma vez foram jornalistas: Borges, Garcia Marquez, Fuentes, Onetti, Vargas Llosa, Astúrias, Neruda, Paz, Cortázar, ainda mesmo aqueles cujos nomes não menciono. Esse trânsito de uma profissão à outra foi possível porque, para os verdadeiros escritores, o jornalismo nunca é uma mera maneira de se ganhar a vida e sim um recurso providencial para ganhar a vida. Em cada uma de suas crônicas, ainda naquelas que nasceram sob a pressão das horas do fechamento, os mestres da literatura latino-americana comprometeram o próprio ser tão a fundo como em seus livros decisivos. Sabiam que se traíssem a palavra até na mais anônima das publicações de imprensa, estariam traindo o melhor de si mesmos.

Um homem não pode dividir-se entre o poeta que busca a expressão justa das nove da manhã às doze da noite , e o repórter indolente que deixa cair as palavras sobre as mesas de redação como se fossem grãos de milho. O compromisso com a palavra é de tempo completo, a vida toda. Pode ser que um jornalista convencional não pense assim. Mas um jornalista de raça não tem outra saída que não a de pensar assim. O jornalista não é uma camisa que a gente veste na hora de ir para o trabalho. É algo que dorme conosco, que respira e ama , com nossas mesmas vísceras e nossos mesmos sentimentos.As palavras escritas nos jornais não são uma mera prestação de contas do que acontece na realidade. São muito mais. São a confirmação de que tudo quanto vimos realmente aconteceu , com um luxo de detalhes que nossos sentidos foram incapazes de abarcar".

O futuro do jornalismo

Tomás Eloy Martinez pincela , em sua palestra aqui transcrita de forma segmentada, o que está por vir: "A linguagem do jornalismo futuro não é uma simples questão de ofício ou um desafio estético. É, antes de tudo, uma solução ética. (...) Cada vez que as sociedades mudaram de pele ou cada vez que a linguagem das sociedades se modifica de maneira radical, os primeiros sintomas dessas mudanças aparecem no jornalismo. Quem ler atentamente a imprensa inglesa dos anos 60 reencontrará nela a essência das canções dos Beatles, assim como a imprensa californiana da época refletia a rebeldia e o heroísmo anárquico dos beatniks ou a vaidez mística dos hippies . No grande jornalismo se pode sempre descobrir, quando se trata de grande jornalismo, os modelos da realidade que se avizinham e que ainda não foram formulados de maneira consciente.

Mas o jornalismo, ao mesmo tempo, não é um partido político nem um fiscal da república. Em certas épocas de crise , quando as instituições se corrompem ou se derrubam, os leitores costumam atribuir essas funções à imprensa só para não perder todas as bússulas. Ceder a qualquer tentação paternalista pode ser fatal. O jornalista não é um policial, nem um censor, nem um fiscal. O jornalista é, antes de tudo, uma testemunha: cuidadoso, tenaz, incorruptível, apaixonado pela verdade , mas apenas uma testemunha. Seu poder moral reside, justamente, em que se situa distante dos fatos ­ mostrando-os, revelando-os, denunciando-os ­ sem aceitar ser parte dos fatos.Responder a esse desafio exige uma enorme responsabilidade. Nenhum jornalista poderia cumprir de verdade essa missão se cada vez, diante da tela em branco de seu computador, não repetisse: O que escrevo é o que sou, e se não sou fiel a mim mesmo não posso ser fiel a quem me ler.

Ouço repetir que o jornalismo da América Latina está vivendo tempos difíceis e sofrendo ataques e ameaças à sua liberdade por parte de vários governos democráticos. Nas ditaduras sabíamos muito bem a quê nos segurar, porque a força bruta e o absolutismo agridem com fórmulas muito simples. Mas as democracias ­ quando são autoritárias ­ empregam recursos mais sutis e mais tenazes , que às vezes tardamos em reconhecer. Os tempos sempre foram difíceis na América Latina. Dessa carência podemos extrair certa riqueza. Os tempos difíceis costumam nos obrigar a dar respostas rápidas e lúcidas a perguntas importantes. Quando Atenas produziu as bases de nossa civilização, enfrentava conflitos políticos e líderes demagógicos semelhantes a muitos dos que hje se vêem por estas latitudes. E apesar disso, Aristóteles imaginou as premissas da democracia a partir dos traços que então tinha Atenas .

(...) Algo semelhante está acontecendo agora na América latina. Quando mais parecemos fora da história, mais metidos estamos no coração mesmo dos grandes processos de mudança. Enquanto jornalistas , enquanto intelectuais, nosso papel , como sempre, é o de testemunhas ativas. Somos testemunhas privilegiadas. Por isso é tão importante conservar a calma e abrir os olhos : porque somos os sismógrafos de um tremor cuja força vem de todos os povos. É preciso colocarmo-nos a pensar juntos , é prciso que nos dediquemos a narrar juntos. O que vai ficar de nós são nossas histórias, nossos relatos. É preciso renovar também as utopias que agora estão se apagando no cansado coração dos homens. Uma das piores afrontas à inteligência humana é que continuemos sendo incapazes de construir uma sociedade fundada por igual na liberdade e na justiça. Não ne resigno a que se fale de liberdade afirmando que para tê-la devemos sacrificar a justiça , nem que se prometa justiça admitindo que para alcançá-la é preciso amordaçar a liberdade. O homem, que encontrou resposta para os enigmas mais complexos da natureza, não pode fracassar diante desse problema de sentido comum".