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< capa da edição de 09 de março de 1999




Aproveita mais quem chega antes.

A instabilidade das leis brasileiras provoca reações extremadas das empresas e dos cidadãos impotentes diante dos fatos consumados. No Paraná, a Bond Street Indústria e Comércio de Bolsas Ltda., sediada em Rio Negro, patroa de 98 empregados, publicou uma carta aberta às autoridades federais e estaduais. O motivo? A empresa havia produzido 200 mil unidades de bolsas para kit de primeiros socorros, que no começo do ano era obrigatoriedade por lei para os veículos em circulação no país. Assim como a lei entrou, saiu. E a Bond Street ficou com o mico na mão : as bolsas, e mais o recheio delas, já previamente encomendado da empresa de produtos de higiene e socorros Cremer.

O diretor-presidente da empresa, Bernardo Sandler, relata, na carta aberta, que as 200 mil unidades estavam faturadas à União . Agora o que faremos com nosso estoque, cujos pedidos foram suspensos e cancelados, pergunta o indignado empresário. E diz que "investir na indústria, criar oportunidades de emprego, pagar todos os impostos, "virou roleta". Veste a carapuça relatando que "somos idiotas acreditando em leis votadas e aprovadas" e cobra dos deputados mais responsabilidade. Ao final, um gesto quixotesco: "Dou fé que minha empresa não tem nenhum passivo comercial, bancário e fiscal. Desse modo, ao invés de perder tanto dinheiro nesse produto, prefiro doá-los a vossa Câmara dos Deputados, deixando-os a vosso dispor, para melhor uso".

Ganha quem sai na frente.

Os kits de primeiros socorros, um brinquedo que veio na esteira da nova lei de trânsito , deu lucro alto a quem agiu rápido. Quem resolveu negociar com a União, como o empresário queixoso, ficou igual a todos os pequenos que imaginam ter tirado a sorte grande. Alguém lucrou, mas não foi ele. No início do ano, as bolsinhas de couro com esparadrapo , gaze e ataduras , uma tesourinha plástica para crianças e luvas de borracha ­ nem mesmo um desinfetante fazia parte da merenda pós acidentes ­ foi o brinde mais utilizado pelas grandes empresas. Até mesmo uma operadora de cartão de crédito presenteou os correntistas com o caprichado kit. Tudo desnecessário, hoje. A lei foi revogada e quem pensou que ainda ia ganhar alguma coisa acaba tendo que doar, para se livrar, ao menos, dos impostos.

Deixando de lado o fato específico ­ prejuízo de um e alívio de outros, que se livraram de pagar até 15 reais pela bolsinha de emergência ­ o Congresso Nacional está vivendo seus estertores ao afrontar a paciência do cidadão comum. O único motivo que leva o povo a votar, ainda, é a obrigatoriedade do ato. Não fosse isso, as ausências ganhariam das presenças, em dia eleitoral, e não haveria mais eleitos no país. Um caos e uma anarquia. Pressumíveis criminosos comuns convivendo com criminosos eleitorais ­ quem é melhor, o que rouba dinheiro público ou o que rouba votos para se eleger?- com o agravante da presença de assassinos eventuais ( o senador Arnon de Mello, já falecido, pai do ex-presidente Fernando Collor, é o mais notório) fora o atual acusado , um deputado ­ também de Alagoas, que ocupa a cadeira de sua pressumível vítima ­ tornam o Congresso Nacional a cara, mesmo, do Brasil.
A imunidade parlamentar eleva os mandatos eletivos a mercadoria de alto preço. Enquanto não for revista, os kits de emergência que surgem meteoricamente servem de cortina para ações não apenas irresponsáveis, mas danosas e comprometedoras das leis brasileiras.