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< capa da edição de 11 de fevereiro de 1999




O mundo distante dos sem-crédito
Marilena Braga

Fechado para a folia do Carnaval ­ nosso cartão postal mais vigoroso no exterior ­ o Brasil terá de enfrentar, após o feriado semanal, uma nova postura econômica e social. Não digo política, porque este é um tema servido à parte nas questões brasileiras. Ingrediente básico em países sem firmeza econômica, e agora também movediço no terreno monetário, a política brasileira é que estaria merecendo uma intervenção . Pena que o nosso Soros político tenha sido gerado na Bahia , reverencie a folia partidária e não tenha qualquer intenção de globalizar o seu poder. Quem tem o modelo caipira como sustentáculo de equilíbrio deve ir fundo na pesquisa dos motivos que alheiam o Brasil da ordem mundial.

Podemos, na estreiteza dos problemas brasileiros e na falta de empenho da política dominante por soluções, lançar o olhar pelo pensamento global das economias, emaranhado que está o mundo em teorias e práticas diversas. Em uma recente análise do jornal francês Le Monde , datado do dia 4 último, diversas alternativas levantadas no Fórum de Economia Mundial de Davos, realizado na Suiça, de 28 de janeiro a 2 de fevereiro , são postas como reflexão ao jogo dos interesses dos países . Com certeza todas as propostas discutidas ­ havia mais de 1000 industriais e perto de 300 representantes políticos ­ chegaram ao conhecimento da área econômica brasileira , ausente da Conferência Mundial pela emergência dos problemas locais. Pois Davos, segundo o Le Monde, projetou "um mundo flutuante".

O que seria isso? Um confronto, brando e persistente ­ alertamos que o ensaio do jornal francês está aqui com interpretação livre e adequado às necessidades brasileiras ­ entre a filosofia econômica americana e a corrente européia e japonesa. Segundo os industriais europeus , a flutuação anárquica da moeda ( vista num sentido global) prejudica qualquer ação econômica a médio prazo. Prejudica os investimentos e, portanto, o crescimento .

Dois lados de duas moedas

Segundo o Le Monde, os Estados Unidos e seu presidente, Bill Clinton, desejam uma "nova arquitetura do sistema financeiro mundial", mas uma reforma apenas de fachada. O conselho dos peritos americanos aos países emergentes, Brasil entre eles, seria a auto-destruição , com renúncia das moedas nacionais e dolarização como alternativa. Idéia já encampada ­ e deixemos o Le Monde fora deste comentário ­ pela Argentina. Já a proposta européia é a da união, a exemplo do que já foi feito com o Euro , moeda comum hoje a 11 países da Europa , e ­ novamente o Le Monde fora disso ­ já discutida pelos países que compõem o Mercosul , na tentativa de uma futura moeda única. Dentro de uma visão do mundo flutuante, a proposta de moeda unitária do Mercosul vira utopia. Só pode reformar, quem já formou. Não é o caso das economias sul-americanas.

É oportuno repetir a visão do economista Paul Kennedy, da Universidade americana Yale , para quem "na economia, assim como em nossas vidas pessoais, há altos e baixos". Segundo ele, a vida econômica é baseada em ciclos. Uma filosofia simplista, que reflete a situação econômica brasileira mais adequada às gerações hoje ativas no mercado de trabalho e na linha de frente do difícil ordenamento financeiro do país. Se até alguns meses atrás estava o Brasil inclinado a seguir a tendência européia de gerir a economia , hoje sentou-se no colo da filosofia dos Estados Unidos e por ela será embalado com olhar paternal e regulador.

Quinhentos anos em vão?

Fortalecidos pelo desempenho econômico , somente os americanos têm hoje condições de impor seu ponto de vista. Uma supremacia discutida no Fórum Econômico Mundial de Davos, pauta do ensaio do Le Monde, que repassa a idéia de estar a bolsa de Nova Iorque supervalorizada em cerca de até 25 por cento. Textualmente diz o ensaio do jornal francês:

"Diante desta situação, persistem duas abordagens ideológicamente diferentes mas no fundo muito tradicionais. Para alguns, sobretudo os americanos, a instabilidade é a principal fonte de progresso e prosperidade. Portanto, não se deve perturbá-la . Para outros, em particular os japoneses e os europeus, ela é, ao contrário, um fator de destruição e desmobilização. Portanto, deve-se tentar reduzir seus efeitos pela adoção de novos regulamentos".

Um tema para aprofundar. Fortuna e Virtude gostaria de conhecer o juízo de seus leitores sobre o assunto. envie seu e-mail.