Ou mudam, ou perdem o poder
Marilena Braga


O que é mais importante: o que parece que vai acontecer ou o que realmente acontecerá? Pessoas envolvidas só com o presente, ou comprometidas de verdade com o futuro têm a mesma resposta: importante é o que escolhemos que seja importante. A visão pessoal, paradoxo nesse mundo global em que vivemos. Mas uma classe de pessoas sofre antecipadamente com o que vai acontecer. Os políticos, perseguidores de mandatos, subjugados ao poder, articulistas dos acontecimentos que, presumem, deverão comandar o país. Alguns são admiráveis. Começam na juventude, nos movimentos estudantis, seguem na vida adulta uma cartilha de princípios da qual não se desviam, passam por altos e baixos conforme a lei de que em política um dia se é prego, outro, martelo. Radicalizam, mas não se tornam sectários. São raros, são brilhantes à luz da História, são indispensáveis. Formam o precário pensamento político brasileiro, ainda que não repartam a mesa do poder.

Outros passam o tempo a perseguir o próprio rabo. São jogados na cena política por ação de lobistas, despachantes de interesses pessoais e descompromissados com as exigências do país. Mesmo em convívio com políticos de outra têmpera não conseguem a osmose que os redimiria. Pelo poder tudo fazem e do poder não se apartam. Não fazem política, fazem negócios. Para si e para outros. São de uma espécie que cresceu durante a ditadura e tomou conta do Brasil após o retorno dos governos civis. Não são carne nem peixe , sobreviventes de um regime que encontra ampla acolhida na democracia autoritária dos dias atuais. Mas são importantes porque oferecem o contraste para que a política da sociedade se desenvolva.

Entre um e outro há um terceiro, a mistura do sonhador e do cínico. É desses que o Brasil atual vem sobrevivendo. Já passaram pelo primeiro tipo, têm uma atração fatal pelo segundo (sucumbem, algumas vezes) mas conseguem atuar no equilíbrio. Está nas mãos deles a decisão do que o Brasil será daqui para a frente . Não é aconselhável que apenas o pensamento, sem a presteza da ação, norteie a vida de um país. Ideal é que o primeiro e o terceiro tipo atuem juntos, de olho no segundo, sempre disposto a desviar os esforços que possam atingir o todo ao invés de alguns. A política é uma ciência social. Longe de equacionar dados exatos, repele ou aproxima conforme o grau de envolvimento de cada cidadão.

Chegamos aqui ao pêndulo do relógio do tempo da vida brasileira. Sem informação, educação, direitos garantidos, economia viva (que significa emprego, produção, leis trabalhistas que olhem tanto o empregado quanto o empregador , comida na mesa para toda a população) um respeito verdadeiro à Constituição do país, fica difícil para o eleitor distinguir a que tipo de político está favorecendo. Ao contrário dos países desenvolvidos, no Brasil a grande escolha não passa pelos formadores de opinião (ainda que a imprensa se acredite decisiva) nem pela classe média desorganizada. É a multidão arrastada pela desinformação que define a vida eleitoral. Até onde interessa manter essa grande parcela de brasileiros na ignorância é resposta a ser encontrada nos negociantes políticos, por enquanto. Aos articuladores do futuro cabe avaliar se terão a resposta que pretendem continuando a manter as decisões nacionais em círculo fechado.

Marilena Wolf de Mello Braga é jornalista e empresária em Curitiba, diretora da Prima Donna Marketing Pessoal, Textos e Informação . Criou e edita o jornal Fortuna e Virtude, exclusivo para a Internet.