< Voltar para o jornal do dia
< capa da edição de 12 de janeiro de 1999




Greve virtual humaniza a Internet

"Amanhã, eu não uso a Internet nem pra ver meus E-mails", protesta Anelize Barros, 23 anos, usuária da Internet em Curitiba. Fernando Porchaski ,21, também de Curitiba, radicaliza. Acha que todo mundo deveria cancelar as assinaturas com os atuais provedores, para forçar a revisão dos preços vigentes.Como eles, o assunto greve entre os usuários da Internet tomou conta dos debates e divide os palpites. Se até agora a Internet ainda não é popular no Brasil, a palavra greve é conhecida de todos, proprietários, ou não, de computadores e linhas telefônicas.

O movimento de protesto, que incita os internautas a deixarem de acessar a Internet durante 24 horas, começando pela zero hora de amanhã, dia 13 de janeiro, não tem paternidade. Pequenas notas na mídia convencional deram conta de que uma greve estava a caminho. Diferente, sem piquetes ou confrontos diretos. Pegou de surpresa até o Ministério de Comunicações, em Brasília, meio perdido e solto no contexto do tema, agora que os serviços de telefonia foram privatizados.
Mesmo assim, Cesar Borges, chefe da Comunicação Social do Ministério, tentava se orientar com a Anatel - empresa oficial que regulamenta o setor de Telecomunicações - para informar os curiosos. Segundo ele, os provedores de Internet oferecem um serviço de valor adicionado, que não depende de outorga oficial. É um serviço privado, que a Anatel não precisa autorizar. Uma questão entre consumidor e provedor. Mas Borges prevê que o assunto tende a se tornar uma questão maior. E ressalta que essa é uma visão pessoal sua, não a do Ministério. Na opinião dele, a greve é uma tentativa de chamar a atenção para o problema do preço que, no Brasil, ainda é muito alto, em relação aos Estados Unidos .

Os números de usuários em todo o Brasil, que se conectam na Internet diariamente - alguns para negócios e outros para pesquisa ou lazer , sem contar a consulta de informações ou banco de dados , além de compras on-line e uma dezena de outras utilidades ( inclusive esta, um jornal de opinião e reflexão) - são controversos. O Ministério das Comunicações relata que em 1995 eram 800 mil brasileiros conectados na WEB (www - teia do mundo todo , na tradução literal ). No ano de 98, esse número fechou em 8 milhões. E para 99 está previsto que o Brasil terá 15 milhões de usuários interligados em rede mundial. Os dados, não oficiais, pois não há um controle efetivo dentro do Ministério sobre isso, chocam com outros fornecidos a Fortuna e Virtude por provedores locais, que não registram hoje, entre todas as empresas que atuam no setor, mais de 5 milhões de usuários.

Os impulsos, esses vorazes complicadores.

Ainda que a grita dos usuários da Internet seja com os provedores, razão da greve anunciada e ainda não se sabe bem sucedida, o que encarece a utilização da teia global de comunicação é que ela usualmente é feita via telefone . Com a telefonia privatizada recentemente no Brasil , sem que ninguém saiba dar conta oficialmente de como vão ficar as tarifas daqui para a frente resta a incógnita sobre o barateamento do serviço.
Conectar na Internet custa ao usuário duas despesas: o pagamento mensal ao provedor e a manutenção da conta telefônica , que se baseia em impulsos durante o horário comercial. Espera-se que essa extorsão do serviço telefônico, inventada pela administração estatal, seja revista , ou melhor adequada, pelas empresas privadas que vão controlar o setor. Até agora, na área de privatização da telefonia , todos estão se fazendo de mortos. A única novidade são os aparelhos digitais , que estão deixando os analógicos doidos e fora de alcance, letra morta em matéria de comunicação num futuro bem próximo.
É daí que vem a explicação de como chegar na Internet de forma clara e rápida. Segundo a Telecomunicações de São Paulo - que substitui a antiga Telesp - a empresa só interfere na Internet fornecendo o meio físico , a linha telefônica para a conexão. O setor de Comunicação de Dados da nova Tele incita o uso da linha digital de 64 kb . É uma linha de alta velocidade, limpa, sem ruídos ou interferências, explicam. É a que vem sendo usada pelas grandes empresas, que fazem negócios via Internet .

Greve contra os lucros ( dos outros)

Nos Estados Unidos, quando os provedores de Internet fizeram a primeira greve ( foi uma reação ao contrário, partiu dos fornecedores da comunicação na rede, ao invés dos usuários) os preços dos impulsos telefônicos baixaram em 15% . Os provedores brasileiros cobram entre 20 a 30 reais mensais para proporcionar o serviço , alguns deles sem limite de horas/mês e outros limitando a utilização por número de horas contratadas. Só no ano passado duas grandes provedoras de acesso explodiram em número de usuários, na região Sul e Sudeste . Pertencentes a redes de comunicação convencional, que sustentam jornais, rádios e emissoras de televisão, vêm atraindo clientela com ofertas de horas grátis durante um mês, para que todos conheçam os serviços oferecidos , retomando as assinaturas depois ao custo de dez reais.
Se essa prática de preços baixos ­ só na conta do provedor, porque o acesso telefônico é um gasto à parte ­ é possível é porque o retorno em movimento comercial é tão grande quanto na mídia convencional, com perspectivas de se tornar maior. A UOL, Universo on-line, do Grupo Folha de São Paulo, cobra ­ as tabelas de preços estão na rede para quem quiser conferir ­ 15 mil reais por mês para o anunciante que quiser manter um milhão de inserções mensais de seu produto. Para menos visibilidade, a tabela de preços cai, nunca inferior a três mil e quinhentos reais. A vantagem é que a rede proporciona a que um site ( home-page) dê acesso a outro, basta que um link ( palavras-chaves que abrem outro tema) faça a união. É um repasse instantâneo de informações.

Fonte de emprego e renda.

Para que a propaganda atinja suas finalidades, na WEB, centenas de pessoas atuam por trás da criação de "banners" ( logomarcas, com animação ou estáticas), textos e tecnologia de informação virtual. A greve programada para este dia 13 fará com que tudo isso tenha menor visibilidade. Se vai resultar em prejuízo, não é possível prever. Ao contrário dos meios convencionais de mídia, não há como controlar a frequência de acesso aos sites. Todos os números fornecidos ­ você é o 10.050 usuário a entrar nesta página ­ são descaradamente falsos. Só o provedor pode colocar alguma coisa próxima a um contador de frequência para contabilizar os acessos a cada site que hospeda.
As dezenas de provedores espalhados pelo Brasil, como franquias dos instalados nos centros maiores, alegam que os serviços prestados por eles custam muito mais do que os usuários pensam. Enquanto a aparelhagem básica para começar um serviço desse tipo custar dez vezes menos nos Estados Unidos do que no Brasil ­ nós importamos a tecnologia de fora ­ não há previsão de diminuir os custos para o usuário. O suporte técnico da Matrix, provedora com sede em Florianópolis e franquias em outros estados, informa que com menos de 500 mil reais não é possível montar um bom provedor. Sustenta que o governo ainda está com o monopólio na área , e só depois que as empresas privadas passarem a controlar o setor será possível negociar preço. Conta ainda com a possibilidade de que o acesso à Internet via ondas de rádio se expanda, abrindo outro canal paralelo à linha telefônica.

 

Falta auditoria
para comprovar
acessos.


A Telepar, que
fornece os meios
para diversos
provedores, relata,
através de seu gerente
de Divisão de
Relacionamentos
Comerciais,
Olbir Sondahl ,
que tem serviços
de ponta a ponta
para facilitar o trânsito
da Internet, pois
também provê as
linhas para o cliente
internauta.
[clique para saber mais]

 

 

Sem fé
na greve


A greve de
amanhã, dia 13/01,
de usuários
de Internet, nasce
com princípios
fortes mas
com pouca
utilidade.
Não há mudanças
no que não está
enfraquecido.»
Nunca a Internet
no Brasil foi tão
popular.

[clique para saber mais]