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< capa da edição de 13 de março de 1999




Uma herança preservada?
Marilena Braga

Poder e dinheiro estão sempre juntos. Salvo nos raros casos de extremo apelo conjugado entre os meios de comunicação e os ungidos para a vitória política, quando é o dinheiro que corre atrás do pretendente ao poder institucional. Isso aconteceu nas eleições de 89, com o capital brasileiro apostando pesado em Fernando Collor. Repetiu-se o fato em 94, na primeira eleição de Fernando Henrique. O interlúdio entre o poder político e o dinheiro durou até a conquista do segundo mandato, conseguido à custa não do dinheiro do empresariado nacional, mas do seu silêncio. Curiosa forma de vencer uma eleição. A conivência com o erro desabou na cabeça dos patrocinadores este ano, a partir de janeiro. Agora é cada um por si e as dificuldades contra todos.

No plano estadual não é diferente. O governador Jaime Lerner vai esquentar muito a cabeça até o final do segundo mandato. Desde já tem pretendentes ao seu lugar, dentro de seu próprio terreno político. Incomodam e roubam o lustro que precisa manter para firmar liderança. Aí está seu ponto frágil. Governa, mas não lidera. Uma posição singular. Arrasta nessa indefinição pessoal o nome que quer ver como seu sucessor no Palácio Iguaçu, o prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi. Outro caso de liderança política fora dos padrões tradicionais. Talvez por isso nem Lerner nem Taniguchi sejam simpáticos ao presidente do legislativo estadual, deputado Anibal Curi, que não gosta de pílulas ou preservativos eleitorais. Prefere a tabelinha. Com ela, não erra.

Para fazer de Cassio Taniguchi governador em 2002, Lerner precisa de um grande suporte econômico no Paraná. Se as contas forem ralas e o caixa oscilar até o final de seu mandato, pode voltar ao seu nicho curitibano. Terá entregado a carreira começada nos anos setenta ao PFL glutão. A dele e a de Cassio Taniguchi, eleito em 96 pelo vácuo político dos outros partidos: o PSDB do senador Álvaro Dias, que não engrena , e o PMDB do senador Roberto Requião, que atua na contra-mão da política estadual. Tem Jaime Lerner uma prioridade.( Ou deve ter. Isso é com ele). Fazer do Paraná um estado rico.

Para isso tem todo o apoio do dinheiro estadual . Nenhum candidato lhe fez frente nas eleições do ano passado pela supremacia financeira que tinha para sua campanha. Para sustentá-la, precisará agora o que não precisou no primeiro mandato: competência. Governar na crise é insuportável. O presidente Fernando Henrique já desistiu. Lerner não pode . Tem de acordar do sonho e enfrentar a realidade. Se entrar em devaneios, leva uns solavancos de Cassio Taniguchi. Afinal, ele é ou não é o sucessor programado pelo binômio poder e dinheiro?


Cassio Taniguchi
Prefeito de Curitiba





Jaime Lerner
Governador do Paraná