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< capa da edição de 13 de abril de 1999




O Paraná vai descobrir o Brasil
Marilena Braga

"Quanto mais chão, mais paixão". Poesia de caminhoneiro percorrendo as estradas. Não deve ser muito diferente da emoção que embala o fotógrafo Orlando Azevedo, o guia de turismo de aventura Iguaçu Paraná e o jornalista Fabiano Camargo , que no próximo dia 21 ganham a estrada para uma expedição de 30 mil quilômetros ao Coração do Brasil, nome do projeto acalentado há alguns anos por Orlando, viabilizado pela experiência de Iguaçu Paraná e pela curiosidade jovem de Fabiano. Uma trinca arrojada que deixa para trás o conforto e a acomodação curitibana para compor um Brasil novo em imagens, textos e descobertas.

Os portugueses chegaram no Brasil há quase quinhentos anos . Orlando Azevedo também veio de Portugal, e os muitos anos de Curitiba quase apagaram de sua voz o acento de além-mar. Aportou no Brasil com 13 anos, e está próximo de completar 50. Antes da fotografia se apaixonou pela música. Foi baterista do conjunto A chave , entre os anos 68 e 70. Os componentes se dividiram, dando origem ao grupo Blindagem. Orlando descobriu na fotografia uma nova forma de expressão. Não se pode garantir que a definitiva. Para quem amplia horizontes não há limites. Prova disso é o Museu de Fotografia Cidade de Curitiba, que criou.

Casado com a também fotógrafa Vilma Slomp ­ com quem divide o estúdio mais procurado pelas agências de publicidade , políticos e profissionais à procura de uma imagem exata ­ é o fotógrafo oficial do governador Jaime Lerner. Por vários meses, todos vão ter de se contentar sem ele. "Porque é tamanha bem-aventurança o dar-vos quanto tenho e quanto posso, que quanto mais vos pago, mais vos devo". O trecho do soneto 22, de Camões , pode bem exprimir o que move o fotógrafo Orlando Azevedo em direção a interpretar o Brasil em imagens novas, sem preconceitos ou amarras culturais.

De Graciliano a Fabiano

Fabiano Camargo fará o diário da expedição ao Coração do Brasil. "Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era", conta Graciliano Ramos , em seu romance Vidas Secas . O jornalista que segue dia 21 na aventura às vésperas dos 500 anos do Brasil deve o nome ao pai, o também jornalista Francisco Camargo , que emprestou do personagem de Vidas Secas o nome para o filho. A mãe, a também jornalista Lúcia Camargo, hoje secretária de Cultura do Paraná, concordou . Isso há 27 anos.

Cultura sempre foi a praça de Lúcia. Em 68, recém-instalada a ditadura, promoveu no Teatro Guaíra a Primeira Noite da Poesia Paranaense ( e a última). Sacudiu os quartéis. Já o Francisco Camargo é autor da melhor manchete já publicada na imprensa paranaense. "A terra é de Cretã. Para sempre". Cretã era cacíque indígena, e lutava pelas terras do seu povo, nas reservas do Paraná. Morreu por elas. Se os pais têm história, Fabiano agora fará a dele.

Que já começou, desde a escolha da profissão, que pratica há oito anos , em textos diversos que vão de música, esportes radicais, aventura e cultura . Foi nas entrevistas para a mídia impressa que conheceu os companheiros da expedição programada. Entrevistou Iguaçu Paraná sobre turismo ecológico e passou a consultá-lo como fonte. Com Orlando Azevedo a mesma coisa. Juntou-se a eles no projeto. Fabiano não se rotula um jornalista de redação. Não gosta de ficar fechado. O Coração do Brasil está na sua medida.

Um nome, uma vocação

Mato e lama é a fórmula da felicidade para Iguaçu Paraná. Moldado para representar o espírito de aventura dos paranaenses ( e não é que existe ?), nasceu com o nome pronto. O pai gostava de nomes indígenas. E batizou o filho com o nome do Rio que nasce em Curitiba e ajuda o Rio Paraná a formar as Cataratas do Iguaçu. Um destino adivinhado? Para definir o gosto do neto o avô deixou-lhe como herança um jipe ano 51. Iguaçu tinha na época 17 anos. Hoje tem 37. Já soma 20 anos de aventuras, como piloto de provas off-road , participando de rallyes e guiando expedições que ele chama de aventuras, e os outros chamam de ecológicas.

O recado eletrônico no seu telefone já sugere suspense e um desafio que brinca . A voz se arrasta enfatizando as vogais : Iguaçu Turismo, Aventuras... O cartão profissional é um jipe fotografado ao por-do-sol, à beira do mar. Iguaçu Paraná é um personagem da natureza. E da mecânica. Tem três jipes que comprou demolidos e restaurou. Para a expedição Coração do Brasil montou especialmente um veículo que acomode as necessidades básicas dos três ocupantes: o Brucutu será a casa onde a aventura vai descansar nos caminhos brasileiros.O poeta Tasso da Silveira não poderia imaginar que em seus versos de Caminho Suave retrataria bem um homem da aventura: "Eu não busquei este caminho, mas sabia, desde o começo, que os meus passos rumariam por ele..."

Um selo para durar

De 21 de abril
até final de novembro
- tempo previsto para
cumprir as três rotas
estudadas , a expedição
que partirá de Curitiba
está a serviço do
programado e do
imprevisível. Por onde passarem - Orlando,
Iguaçu e Fabiano,
passará também
o selo criado para a
aventura cultural e
emocional: um coração
com artérias à mostra, encimando o mapa
do Brasil. Uma marca
criada pelo artista
plástico Rones Dunke,
e trabalhada
fotograficamente por
Orlando Azevedo.
Que se prepare o
Brasil. Antes dos seus quinhentos anos de
descobrimento a
curiosidade da
expedição paranaense
terá muitas
novidades a
acrescentar
a tudo que já é
conhecido.
Toda ajuda é
importante.
O projeto Coração do
Brasil pode ser
conhecido em
detalhes
pelo site
www.coracaodobrasil.com.br



"Porque é tamanha
bem-aventurança o
dar-vos o quanto tenho
e quanto posso, que
quanto mais vos pago,
mais vos devo".
Luís de Camões,
Soneto 22.



"Iriam para diante,
alcançariam uma terra
desconhecida.
Fabiano estava
contente e acreditava
nessa terra, porque
não sabia como ela
era nem onde era".
Graciliano Ramos,
Vidas Secas.



"Eu não busquei
este caminho, mas
sabia, desde o início,
que os meus passos
rumariam por ele...
"Tasso da Silveira,
Caminho Suave,
poema.