< Voltar para o jornal do dia
< capa da edição de 14 de janeiro de 1999




O real juntou parceiros de prejuízos.

Não dá para culpar os colarinhos brancos desta vez. A cor da camisa mudou. Agora é azul, do tom mais escuro ao mais clarinho. Colarinhos azuis desfilaram ontem por todos os noticiários de televisão , um exército de economistas, jornalistas, políticos, ministros, ex-ministros, até o presidente. Um azul privatizado em todos os lugares. Na era pré-Fernandos podia haver crise , mas não era "fashion". A ilusão da riqueza vestiu os otários da globalização de uma cor só. Não estamos falando de moda. É de modos que se fala. O frenesi das privatizações deixou sequelas morais em muitos dos homens do Presidente. A equipe mais próxima dele , composta de nomes fortes, caudalosos, está fora.

O presidente do Banco Central, Gustavo Franco, é o último, por enquanto, a deixar o poder oficial. Antes tiveram de ser afastados Mendonça de Barros, que foi ministro das Comunicações no final do primeiro governo de Fernando Henrique e comandou o leilão das empresas estatais de telecomunicações, e André Lara Rezende, na época presidente do BNDES, o banco de desenvolvimento nacional que dava suporte ao esquema de captar capital estrangeiro para privatizar empresas brasileiras . O episódio do dia 13 último, que resultou no afastamento de Franco, o menino dos olhos do Presidente, a primeira vista nada tem a ver com o que aconteceu com os protagonistas de mais um episódio de grampo telefônico.

A notícia foi que o dólar se mexeu dentro da economia do Brasil. Foi só acontecer que todos os analistas foram buscar os argumentos guardados na garganta há mais de um ano. Depois de uma longa parceria com o poder, o Presidente da República teve seu primeiro dia de cidadão comum. Vestiu azul, como todos os outros, e sua sorte não mudou. A barbeiragem política sustentada desde que a reeleição passou por cima, em importância, de outras reformas estruturais , como a fiscal e a política , desaguou no dia 13 estremecido, quando o governo capitulou e afrouxou as rédeas autoritárias . É aqui que vem a relação dos privatizadores com o afastamento do presidente do Banco Central. Quem lucrou lá atrás, no leilão das teles, fica exposto à sorte do comportamento econômico internacional.

O capital espanhol, português e italiano empenhado no Brasil, misturado aos sócios nativos, ainda nem teve tempo de pensar no lucro e já enfrenta prejuízos. Se ceder à forma brasileira de administrar, vai ter problemas. Será difícil para esse dinheiro europeu, que durante décadas caminhou para uma moeda única, o euro , que pretende ser um capital responsável e competitivo, entender como funciona o dinheiro dos colarinhos azuis. Faz lembrar os casamentos arranjados da monarquia , ainda hoje praticados no extremo e no médio oriente, em que noivo e noiva eram apresentados por fotografia. Se a jura for de até que a morte os separe, o capital brasileiro vai gozar da melhor sinecura.