Um olhar sobre a verdade explícita dos sem-terra: sem dados, nem estatísticas, nem fatos espetaculares
Paulo Polzonoff Jr.

Todos os mestres do jornalismo colocam entre as características que fazem um bom profissional a intuição. Mas nem todos fazem uso de sua capacidade de análise exterior aos fatos, às estatísticas, às declarações. Num esforço de reportagem que nenhum editor aprovaria, resolvi apenas passear pelo acampamento dos sem-terra em frente ao Palácio Iguaçu, escutando coisas, sentindo cheiros e observando atitudes que em nada lembram o que nos é passado pela grande imprensa. O olho de um observador atento, que não se identifica como jornalista, pode ver coisas que são habitualmente omitidas pelo estigma da profissão. Confesso que antes de entrar no acampamento procurei revisitar mentalmente todas as opiniões que tinha a respeito dos sem-terra. Revi as fotos de Sebastião Salgado, os discursos de Stédile, as tragédias em Eldorado dos Carajás e as recentes notícias de invasões de áreas produtivas.

Não quis confirmar nenhuma teoria sociológica ou política. Entrar no mundo dos sem-terra acampados é perceber pessoas organizadas por uma esfera consciente do poder que exercem sobre aqueles que ali estão de certo modo alienados do barulho que a imprensa faz em torno deles. Apenas alguns olhares tão curiosos quanto os meus me acompanharam, sem nenhuma pergunta, sem nenhuma menção de ameaça ou pedido de socorro. As mulheres, em seus barracos, acalentavam as crianças e os homens, a um canto, conversavam, como se estivessem no meio de um pasto, e não no centro administrativo do Estado. Numa barraca alguns sem-terra conversavam com um jornalista de gravador em punho, de certo modo prepotente. No mais era o cotidiano quase retilíneo e tedioso: conversas esparsas sobre o nada, um rádio ligado numa estação de música sertaneja, gritos de crianças, cheiros banais como o de café sendo preparado.

Vendo toda a banalidade do protesto, perguntei-me (e aqui faço ecos dessa indagação) de onde surgem aqueles homens de potentes vozes a execrar o governo e a vociferar palavras de ordem de foice em riste e o indefectível chapéu vermelho na cabeça? De onde vêm aquelas mães de crianças sujas ao colo, andando caladas atrás dos homens em marchas pelo Brasil, chorando seus maridos mortos e às vezes empunhando também foices? E as crianças: quem são aquelas crianças todas enrugadas de tão velhas e curtidas que ilustram os ensaios de Sebastião Salgado e rodam o mundo anônimas como exercício estético da bela miséria? O que há no acampamento dos sem-terra, à sombra dos holofotes e sob o silêncios dos microfones e frente à estática das canetas, é a pobreza em sua face menos glamourosa, sem arroubos evidentes de desespero, nem cenas explícitas de canibalismo.

Não digo "apenas" a pobreza, porque não acho, realmente, que seja um problema menor. Mas a pobreza que se vê ali não tem nada do espetáculo armado tanto pelos organizadores do MST como pela UDR e a mídia em geral. Não há o circo de horrores a que estamos acostumados, as hipérboles de um cenário de devastação espiritual e física. Não há ecos de África no acampamento. É inevitável, por este prisma, pensar nos acampados como massa de manobra. Não sob o comando de um grupo específico, mas de toda a sociedade, que se alimenta do desamparo dos camponeses sem lugar para plantar no país de oito milhões de quilômetros quadrado onde em se plantando tudo dá. Os sem-terra são a catarse das elites e da classe-média, catarse esta que pode eventualmente se expandir até às classes mais miseráveis das grandes cidades, para os quais a lona pode parecer um estágio inferior ao teto de zinco.

E os sem-terra, retratados por fotógrafos renomados e maquilados como se fossem crianças tutsis agarradas às tetas estéreis das mães, exercem com competência ingênua este papel. Claro que há os usurpadores, de caderninho vermelho do Mao à mão, ou de Bíblias esfareladas de tanto manuseadas sob os braços, esbravejando o caminho da libertação que nunca chega, mas que há de chegar, ah se há, e logo, e é para isso que se agüenta o sol e o frio de Curitiba sob as lonas pretas, os olhares das gordas patuscas machadianas a reclamarem do cheiro e da feiúra das casinhas em luto, o porrete dos soldados mal pagos que de tacape em riste pensam que finalmente encontraram alguém em pior situação e mais hostilizados do que eles próprios, e toda a indignação de homens engravatados vendo na causa social o caminho da ascensão às extratosferas do poder.

Andando pelo acampamento dos sem-terra caiu-me por terra todas as teorias sociológicas jamais defendidas, tanto pela direita quanto pela esquerda, e ergueu-se à minha frente um espectro que jamais será abordados por líderes de quaisquer movimentos, seja ele de sem-terra, sem-teto ou sem-banco: a nossa incapacidade de reduzir o homem ao único bem que lhe foi legado: a individualidade. A família da barraca da direita não é em nenhum momento a mesma que a família da esquerda, e entre os membros dessa família os anseios não são os mesmos, e por mais que carreguem o mesmo sobrenome serão apenas um por toda a vida, sem Mao nem Bíblia nem trovejar de palavras empoladas em tribunas alhures. O crime maior da existência dos sem-terra é percebê-los acampados por motivos alheios à sua capacidade de ser. É ouvi-los fingir desejos que talvez não sejam esses que se escutam pelos alto-falantes dos líderes. É observar que cada barraca de lona não é uma barraca de lona preta admirável e cheia de exegeses sociais se não for no acampamento.

É ver o homem "reduzido" à coletividade, que por sua vez remete à individualidade mesquinha de uns poucos, seja o governador Jaime Lerner e seu discurso pelo bem da propriedade e da sociedade paranaense, seja do Sr. Stédile e seu discurso jurássico e planos de um Estado sob a austeridade vulgar da falsa igualdade. Andar pelo acampamento dos sem-terra é perceber um Brasil de apenas uma cara: tão explícita, tão desavergonhadamente escancarada, distorcida por olhos muitos, uns oblíquos e negros, outros retos e azuis; todos subjugados por uma verdade que veio de não se sabe onde, que reza que só há realização do todo em detrimento do único, do ímpar. Andar pelo acampamento dos sem-terra é perceber este ímpar, e dele compadecer-se, sem a histeria cristã de padres de passeata nem a arrogância atéia dos homens do materialismo dialético. Andar pelo acampamento dos sem-terra é perceber que o olhar do homem não pede que lhe dêem dez alqueires e sete mil reais de crédito; pede, isto sim, que lhe dêem o sol, um bom sorriso de manhã, uma tragada no cigarro de palha, doze horas de trabalho duro, uma boa noite de sono. E uma danação sem desvios, que é isso que sempre fez do homem o ser inviável que ele é.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista em Curitiba , tem 21 anos e colabora também com outras publicações para a Internet. E-mail: polzonof@sulbbs.com


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos: Alberto Graf