Os deuses se mudaram . Mesmos atores, ato dois
Marilena Braga

Governar é preciso. Viver, só se sobrar tempo. O episódio da truculência policial em Santa Isabel do Ivaí, com soldados atirando nos ocupantes da Fazenda Saudade (lindo nome, cheio da poesia com que o governador sonha) foi uma sacudida para a realidade. O Paraná não é imune às situações de confronto. Um cavalo de Tróia entrou nas terras antes mansas do estado, sacudindo a paisagem bucólica e os planos antecipados pelas vilas rurais, que devem abrigar 50 mil famílias até o final do governo Lerner. Tróia era uma ilha grega governada por Príamo, que tinha vários filhos, entre eles o valente Heitor e o apaixonado Páris, que ao deitar os olhos em Helena, esposa de Menelau, rei de Argólida, arrebatou-a e a levou para sua ilha. Todas as ilhas gregas se voltaram contra Tróia, comandadas por Agamenon, rei de Micenas e de Argos. Até Ulisses, retornando de sua Odisséia, a caminho de Ítaca, sua ilha onde o aguardava a paciente Penélope, parou em Tróia para intermediar a guerra incandescente. Cassandra, filha de Príamo, sacerdotisa e vidente, previu a derrota de Tróia. Os gregos inimigos mandaram um cavalo de madeira gigantesco, que Príamo aceitou como oferenda dos derrotados.

Presente de grego vem daí. Já dentro das muralhas da cidade, durante a noite os soldados inimigos de Tróia saltaram do ventre do animal, um artifício cravado no coração da cidade. Surpreendida pelo inimigo, Tróia foi destruída. Menelau retomou Helena, símbolo da desgraça. Agamenon voltou para sua ilha e foi assassinado por sua esposa, Clitemnestra, que já o havia substituído em seu leito por Egisto. O jovem Orestes mata o amante da mãe, vingando o pai guerreiro. E sua irmã Electra pranteia para sempre a morte do pai. Ulisses volta para Ítaca, farto de aventuras, consolando Penélope e o filho Telêmaco. A História não acaba com essas personagens da tragédia antiga. Bom seria falar dela o tempo todo, onde as armas eram lanças e os guerreiros tinham escudos. Morrer em combate era a glória. Sobreviver com derrota, uma vergonha que merecia o suicídio.

Governava-se, naqueles tempos de antiguidade tão remota que só a perenidade da literatura e da História ainda os reporta, com a coragem soprada pelos deuses. Século XX, soleira do XXI. Paraná, Palácio do Governo.O governador Jaime Lerner lamenta profundamente o descontrole policial que abre fogo contra foices e enxadas. Por muito menos Álvaro Dias se perdeu. Também com ele foram cavalos a destruir sua Tróia. Em pleno Centro Cívico, na frente do Palácio Iguaçu, a polícia montada investiu contra professores grevistas. Um gesto sem retorno. Politicamente, uma marca definitiva. E Jaime Lerner, como ficará? Pediu um inquérito rigoroso. Já ouvimos essa conversa antes. Não é da antiguidade. Lá, não se inquiria nada. Os deuses comandavam a espada rigorosa contra os excessos. Não há mais espadas. Há canetas. Não há mais deuses para aplacar com misericórdia a fúria pela terra, disputa perene a pontuar a História. As balas de Santa Isabel do Ivaí tinham o aval da legalidade.

Nossas leis não são mais as da coragem. Se escondem na covardia dos atos primários. Depois do fato, o diálogo. Não se deixa a honra do governo na mão de terceiros. Chama-se quem for preciso para intermediar. Errou Álvaro quando trancou-se no Palácio e deixou a Secretaria de Segurança dispersar os baderneiros. Errou Lerner quando viajou para organizar o futuro deixando um foco de rebelião de invasores de terra no arbítrio de seu secretário. Governar na bonança é fácil. Depois do ato extremado, anunciar inquéritos rigorosos é uma falácia. Cumpre ao governador agora uma solução. Tão rigorosa quanto a ação. Mediar confrontos não se consegue nas pranchetas. Nem em papéis oficiais onde os invasores são acusados de onze itens rancorosos. É muita defesa para nenhuma culpa. José Dirceu, presidente do PT, foi lá e disse que é preciso fazer reforma agrária. Será mais emprego e mais alimento para o país, além de fixar o homem no campo. Frase limpa e justa. Mas tão desimportante quanto o inquérito rigoroso do governador. Tragédias gregas. Vencer sem glória era o prenúncio da derrota futura.

( Este artigo foi publicado no dia 14 de novembro de 1995, no jornal O Estado do Paraná. No dia 13 de julho de 1999, esta terça - feira , meia dúzia de fazendas, dadas como improdutivas, foram desapropriadas e destinadas a reassentamento de sem-terras. Uma delas se chama Santa Isabel. O secretário de Segurança Pública em 95, Cândido Manoel Martins de Oliveira, continua no cargo . Ele foi o coordenador político da campanha de Jaime Lerner à reeleição).