O texto na Internet
Ana Kazz Se existe um único consenso entre diversos jornalistas que trabalham com textos na Internet, em home pages, ou os que se especializaram em escrever na mídia tradicional sobre Internet, é de que, num texto voltado para a Web, tudo está por fazer. Confiram comigo: 

A seguinte pesquisa foi aplicada durante o mês de junho de 1999 a sete jornalistas com experiência em importantes veículos de comunicação que tratam da Internet, como revistas especializadas, ou estão na Internet, como home pages. São eles: Cristina de Luca, editora do site Globo On , Marinilda de Carvalho, sub-editora da home page Observatório da Imprensa, Marco Antonio Coutinho , sub-editor do site O Dia Online , Daniel Davidson, editor da revista Internet.br , Nara Franco, ex-repórter do O Dia Online , André Araújo, editor da revista de jogos online GamesMania e Yami Tressequer, sub-editora da home-page Aqui! .

A esses profissionais foram feitas perguntas que tratavam , basicamente, das características do texto produzido para a Internet. Todos concordaram em que ainda não há um padrão a ser seguido. O meio ainda é muito novo e está em fase de amadurecimento . Os estudos que existem sobre o tema raramente podem ser encontrados em livros. A prática de profissionais que atuam no meio é nossa única fonte.

É sabido que existem teóricos que se especializaram em temáticas relacionadas à informática, ao mundo virtual. É o caso de Pierre Levi, em sua série de livros sobre o assunto. Especificamente sobre texto, na Web , reafirmo que a única fonte de que dispomos é a experiência das pessoas que trabalham com a mídia virtual. Neste estudo, pouparei os leitores daquela introdução que fala da Internet, seu histórico e futuro promissor como meio de comunicação. Procurarei dar atenção à análise dos textos produzidos para esse meio.

Nem rádio, nem TV, nem jornal impresso 

Apesar de ter sofrido influência da linguagem dos meios de comunicação tradicionais, o texto na Web, e seus respectivos elementos, já estão apresentando características próprias. Não se pode afirmar que esse texto se assemelha ao do jornal impresso. Textos produzidos para a mídia impressa, não raramente, são muito longos para a Web. Também não é correto dizer que a linguagem da Web reproduz a linguagem radiofônica.

Uma das características mais importantes de meios como o rádio e a televisão é a limitação do tempo, ou seja, o produto e o espectador têm , por exemplo, cinco minutos para realizar e assistir a determinado programa. Na Internet, apesar de ser um meio "desconfortável" que, em um primeiro momento só permite a leitura diante de uma tela de computador, diante da qual o usuário está sentado e mal acomodado, o tempo de uso não é definido. Em outras palavras , o internauta, se desejar, pode se aprofundar em determinado assunto, e , nesse caso, um texto curto e rápido seria insuficiente. 

Dois tipos de texto para a Internet 

A editora do site Globo On, do jornal O Globo, nos fornece interessante contribuição para o paralelo traçado entre a linguagem do rádio e da Internet. Cristina de Luca nos fala de dois tipos de textos oferecidos na home page em que trabalha. Seriam, nesse caso, aqueles que introduzem o leitor em determinado assunto , e aqueles que oferecem ao leitor a possibilidade de aprofundamento no assunto escolhido.

O primeiro tipo de texto citado, segundo a editora do Globo On, caracteriza-se por ser curto , formado apenas pelo lead, respondendo a questões básicas como onde, como, quando, e o quê. "Nesse momento, o texto da Web se assemelha muito a flashes de rádio", diz Cristina. Ela complementa que, nesse caso, evita-se o uso de hyperlinks externos , que remetem a um outro site. Dá-se preferência aos denominados links internos , que encaminham o leitor para outras matérias que tratem de assunto semelhante, dentro da própria página da Globo On.

É nesse momento que o texto passa para a segunda caracterização exposta por Cristina de Luca . Quando se percebe que o leitor tem interesse de se aprofundar no assunto, as ferramentas utilizadas pelo jornalista se diversificam. Torna-se importante o uso de um maior número de hyperlinks. Indica-se a utilização de links internos e externos. Fala-se de apropriação da imagem e do som para dar maior veracidade ao fato narrado.

Outras opiniões

André Araújo , editor da revista de jogos online GamesMania, nos fala da otimização da linguagem na Web através do uso de hyperlinks externos direcionados . Estes links, já nesse período onde o leitor deseja fazer mais observações sobre um assunto, podem facilitar a navegação, quando não direcionam o internauta simplesmente para uma outra home page que trate do tema escolhido mas , que vão direto à página, dentro da home page alheia, que trate especificamente daquele assunto. Isto seria, por exemplo, ler um texto sobre novos monitores. Nesse caso, é útil colocar um link direto para a página que trata de monitores , dentro de um site de uma empresa que fabrica computadores.

Marinilda de Carvalho, do Observatório da Imprensa, descreve detalhadamente como seria a estrutura ideal de um texto para a Internet. "Este teria, no máximo, três telas de editor de texto. A Internet trouxe uma nova medida de texto, a tela. Tecla-se o comando "Page Down"três vezes , se o texto passa dessa medida, deve ser cortado". E completa: "Além disso, aconselho parágrafos curtos cortados por entretítulos em negrito". 

O princípio do scannability 

O destaque-diferenciamento de palavras-chaves, em textos produzidos para a Internet, pode ser outro recurso de grande utilidade para o profissional que escreve para a Rede. Yami Tressequer, do site Aqui! , centrou seu depoimento neste aspecto visual da linguagem na Web . Segundo ela, este texto deve ser animado e se utilizar de formatos, estilos e tamanhos de letras diferentes para facilitar a dinâmica de leitura do internauta. Um exemplo bastante ilustrativo citado por Yami é aquele que trata do famoso "olho", existente na mídia impressa, quando passado para a Internet. "Neste caso, a palavra que compõe o olho merece destaque, no Aqui! . É escrita totalmente em caixa alta, isto é em maiúsculas."

Um outro consenso observado nestas entrevistas é o fato de o texto na Internet ser caracterizado como um meio não linear, não sequencial. André Araújo, da GamesMania, nos faz atentar para o princípio de scannability, que se resume na capacidade/costume do internauta de scanear um texto com os olhos. O jornalista diz que "estudos já comprovam que leitores na Web dificilmente leêm os textos completos e de modo sequencial. Em vez disso, eles passam os olhos pelo texto, identificando as partes mais relevantes. É "bater o olho", ler, procurar outra informação. "Tudo é muito dinâmico", completa André. 

Dentro deste princípio , destacado por André Araújo, devemos entender a necessidade de diferenciar o formato de palavras-chaves, hyperlinks, e- mails, frases-chaves, etc. O aperfeiçoamento dessas técnicas, não raramente, tem como consequência o aumento do tempo de permanência do internauta em determinada home page. 

O futuro da linguagem na Web 

Ao questionar a respeito de outras ferramentas que poderiam ser utilizadas na Internet , excluindo-se o hyperlink, muitos entrevistados falaram do uso de som, vídeo e melhor aproveitamento da característica interativa do meio Internet.

O aprimoramento da utilização da imagem e do som na Web é visto como um processo que ainda devará acontecer , pela maioria dos entrevistados. Esta afirmação se deve ao fato de que tais recursos se caracterizam por serem arquivos muito pesados e, consequentemente, de lenta transmissão. Os programas RealAudio (som) e RealMedia (vídeo) foram qualificados como promissores. Justifica-se esta afirmação pela gratuidade do programa , e da fácil confecção e possibilidade de transmissão em tempo real dos arquivos em Real Audio/Media.

Cristina de Luca, do Globo On, nos chama atenção para a melhor utilização da característica interatividade nas produções para Web. Um bom exemplo, retirado do site Globo On, para mostrar como se pode ter bom uso desse recurso é a seção O tema é. Nela, o leitor passar a pautar o webjornal, sugerindo temas que deverão se aprofundados pela equipe do Globo On.

A esperança por melhores textos para a Web 

É interessante destacar , neste estudo, o aspecto do processo de desenvolvimento de um formato do que viria a ser um texto específico para a Internet, observado por todos os profissionais entrevistados. Em outras palavras, fala-se de um meio que passa e, quem sabe, continuará passando eternamente, por mudanças que determinam o texto usado em seu interior.

Na verdade, estamos diante de um veículo de comunicação extremamente promissor , sobre o qual poucos teóricos se debruçaram para estudar e publicar livros a respeito. A Internet deve se desenvolver na medida em que os profissionais que nela atuam prestem atenção e estudem meios de utilizar as características peculiares da Web.

É um trabalho que está aí para ser feito. Um trabalho pioneiro, que determinará o futuro e a qualidade daquilo que será oferecido na Grande Rede. Este é mais um desafio que os profissionais da linguagem , principalmente jornalistas, devem encarar para o desenvolvimento e aprimoramento da comunicação. É o meio que melhor se insere na pós-modernidade, , neste período histórico específico, caracterizado pela ausência de fronteiras, fragmentação , dinamismo e incertezas.
 
Ana Kazz ( Ana Cristina Costa) , 21 anos, estudante de Jornalismo da PUC-Rio de Janeiro e redatora do Globo On . E-mail: anakazz@gbl.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma linkguagem generosa
Marilena Braga

Tudo está ainda por fazer. O bom do jornalismo na Internet é que ele está nascendo. Não tem vícios, não tem rodeios, não tem censura, quando se trata de sites exclusivos para a Rede. É uma informação depurada, feita por profissionais que pesquisam e não brincam em serviço. O jornalismo da Internet é sério, inovador, seletivo. A Internet ainda não é popular. Por isso seu jornalismo é de primeira linha.

É importante que a linguagem na Internet ( gosto de dizer que é linkguagem) não obedeça aos padrões da mídia tradicional. As revistas, jornais, rádios, tvs estão cada vez melhores. Mas têm seu próprio espaço. O jornalismo da Internet tem obrigação de ser diferente. Mais enxuto, quando preciso; mais extenso quando necessário; espontâneo e responsável. A alma curiosa dos primeiros navegadores.

Têm as home pages específicas para a Internet uma característica que não foi ressaltada por nenhum dos entrevistados: a generosidade. Abrir um hyperlink dentro de uma página pessoal é o mesmo que dizer: passe rápido por aqui, tem mais coisa te esperando em outro site. Uma celebração comunitária.