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< capa da edição de 15 de janeiro de 1999




"Sobre livros e Mercosul".
Constantino Comninos

Recente artigo veiculado em edição nacional na Gazeta Mercantil em 19.11.98, sob o título "O livro no Mercosul", Raul Wasermann, editor e Vice-Presidente da Câmara Brasileira do Livro, incita os habitantes do bloco a adquirir 5 livros/ano.

Com esta cifra, sem dúvida, o Mercosul atingiria um índice aproximado a muitos países desenvolvidos do mundo. Vingada a proposta e no Índice de Desenvolvimento Humano - IDH calculado pela ONU, fosse incluído o indicador leitores/livros, quem sabe, o Brasil, carro-chefe econômico do bloco, destacar-se-ia nestes indicativos em melhores condições de saúde intelectual. Na qualidade tão-só de aprendiz de leitor desde o curso primário mesmo morando em cidade do interior, concluindo o secundário em Curitiba sob a orientação dos Irmãos Maristas, aprendi a cultivar a boa leitura, incentivado por meus pais, bons professores e a convivência com amigos, privilegiados que éramos, pois, sempre recebemos de nossas famílias o encaminhamento permanente à leitura, haja vista, não pouparem economias quando destinadas à compra de livros.

Exercendo o magistério desde os primeiros anos pós bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais, por força de exigência acadêmica, o ecletismo tomou conta das minhas preferências bibliográficas, de sorte que ao mudar de residência trocando-a por apartamento, doei mais de 5.000 volumes. Conversar com livreiros, é sujeitar-se a ouvir um rosário de reclamos: no ramo, são eles os que mais trabalham e menos ganham. Quanto a autoria, a ladainha é maior. Não consigo vislumbrar o Mercosul, atingindo o índice proposto de 5 livros/habitante/ano se o preço de venda do livro no Brasil continuar a ser superior em US$ a muitos países. Comparando o preço com a qualidade da edição de lançamento e a posterior em poquet book nos Estados Unidos e em alguns países da Europa - cito até a Grécia como exemplo -, a diferença a favor deles é considerável. Não conversei com editores. Sabe-se que estes e livreiros travam uma guerra surda, sempre procurando culpados. Os economistas, cassandras da sinistrose, sem dúvida, se inquiridos, culparão em bom economês, o custo da celulose e do papel, o obsoletismo tecnológico, incidência das leis sociais, intervenção do governo, reversão das expectativas e quejandos, justificadores do alto preço do livro nestas paragens.

Conquanto muitas obras de importância científica e cultural cheguem até nós no vernáculo, algumas, com anos de atraso, reconheçamos, nos últimos anos, o movimento editorial brasileiro cresceu em número e qualidade. Exemplificando: há quatro decênios, havia apenas uma dezena de livros de economia editados em língua portuguesa. Hoje passamos do milhar. As ciências sociais eram estudadas em obras estrangeiras. Em um país onde a segunda língua era - e continua a ser -, privilégio de poucos, quem não dominasse - e domine - outra, continuará aprendendo apenas com as anotações de aula.

Infortunadamente: Viva!... Morra!... o Xerox!... Questionando: porque não seguir o exemplo da Argentina, que vem editando obras de interesse geral, a preços módicos, utilizando papel discutível, se é o papel que onera o livro por estas plagas. Guardo ainda edições portenhas, módicas em preço desde o final dos anos cincoenta, a maioria clássicas, que nunca vão sair da moda, pois é aí que se estrutura a praxis da inteligência intelectual de qualquer nação. Concordo com as medidas sustentadas pelo senhor Wasermann. Entretanto, com o devido respeito, discordo quando afirma o desestímulo à editoração e via de conseqüência à leitura em "regimes de exceção". Iniciado nos bancos escolares com a Reforma de Ensino Capanema (1942), em pleno Estado Novo, ouso afirmar que nenhum regime pode impedir totalmente a produção científica e a leitura.

Lembro o esforço de editoras como a Nacional, Melhoramentos, Globo, Guaíra, esta no Paraná, dirigida pelo Professor De Plácido e Silva, que utilizava o parque gráfico da Gazeta do Povo. Na Grécia antiga, em todas as fases políticas que por lá vicejaram, a crítica ao poder era exercitada, ainda que alguns fossem condenados ao ostracismo, prática essa até hoje adotada com outras conotações. As comédias aristofânicas que o digam. São nesses períodos, apesar de uns e outros, que se desenvolve, contudo a clandestinidade, a criação intelectual em todas as áreas do saber, incluso nas artes e adjacências. É muito importante que se leia. É de maior importância que se edite. É muito mais sério ainda incentivar a leitura, principalmente entre os jovens. Em se tratando de Mercosul, é necessário não só a aplicação de uma "pedagogia da integração", como também uma maior divulgação do que é e para que serve o bloco. Estou convicto de que o sucesso total do cone sul só será atingido com edições de muitos... muitos... livros, mas a preços acessíveis.

Constantino Comninos - Professor de Economia Política da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Mestre em Educação. Vice-Cônsul Honorário da Grécia em Curitiba.