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< capa da edição de 16 de março de 1999




A música do Paraná é paciente e aguarda sua vez
Odilon Araújo Neto

Sensibilidade, talento à flor da pele, musicalidade e muita dedicação. Estas são algumas virtudes indispensáveis em qualquer músico que se preze. No Brasil, entretanto, é necessário um pouco mais do que isso. Além desses atributos, o músico brasileiro tem que ter muito jogo de cintura para superar as constantes dificuldades financeiras que afligem o país e enfrentar, muitas vezes, um constante preconceito social que atinge toda a classe artística.

Para muitos envolvidos nesta área, o reconhecimento só chega com o apoio da mídia nacional. Até mesmo artistas que atingem um sucesso de grande repercussão estão sujeitos às severas críticas do imenso público brasileiro. Porém, outros contentam-se em buscar a perfeição sobre aquilo que desempenham. São instrumentistas, cantores ou compositores que passam anos no anonimato perante o grande público, mas realizam uma vasta produção musical em seu nicho de atuação profissional.

Celeiro de talentos

Curitiba é um desses recantos e por aqui surgem muitos talentos que não trocam antigos laços familiares e a infra-estrutura da cidade pela tentativa de sucesso no exterior ou em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde a produção cultural é mais constante e melhor remunerada.
Formado pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, o pianista e compositor Sérgio Justen de Oliveira, 25 anos, é um desses exemplos. Atualmente ele divide seu ambiente de trabalho entre os palcos da cidade, as salas de aula do Conservatório de MPB, onde é professor de teclado, e os estúdios de uma gravadora, onde conclui a gravação do CD "Novos Ares", o primeiro de sua carreira (veja ao lado).

Por enquanto, o artista não planeja se mudar de Curitiba porém, lamenta as dificuldades financeiras na vida de um músico. "Tenho uma visão pessimista", admite. "A crise atual é diferente de outras, pois apesar de não haver inflação, também não há dinheiro para se investir em cultura", completa.
Quando iniciou a carreira, há cerca de seis anos, Justen logo foi convidado para tocar em restaurantes da cidade. "Apesar de ser o irmão mais novo, fui o primeiro na família a ganhar um salário", lembra. Atualmente, ele fatura praticamente o mesmo que ganhava quando iniciou, enquanto seus irmãos, formados nas áreas de engenharia e direito, recebem quantias bem superiores.

Hábitos provincianos

Em 1.985, enquanto Justen executava suas primeiras sonatas e concertos ao piano, um paulistano apostava o futuro de sua carreira em um novo mercado que surgia em Curitiba. Oswaldo Colarusso não pensou duas vezes no momento de trocar São Paulo por Curitiba, depois de ter sido aprovado no concurso para maestro auxiliar da, então, recém fundada Orquestra Sinfônica do Paraná, promovido pelo Governo do Estado.

Seduzido pelo ritmo de vida mais calmo da cidade, aos 27 anos Colarusso deixava o que define como "os hábitos viciados" do mercado cultural paulistano. "Quando me mudei, desprezei a cultura provinciana de Curitiba, que pouco investe em arte, e apostei aqui todos os meus ideais", lembra o maestro que esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná durante 13 anos.
Segundo ele, este pouco valor que se dá à cultura faz a cidade perder talentos, formados aqui, que se mudam para outras cidades brasileiras e até para o exterior, em busca de novos horizontes profissionais (veja ao lado). "O que se investe em cultura no Paraná, atualmente, é quase nada", lamenta.

Decadência

Para o maestro, a atual situação do meio artístico em todo o Estado é crítica. "Para uma cidade que, no início desta última década, tinha sua temporada cultural organizada com uma média de cinco grandes produções anuais, o quadro é de decadência", reflete.

"O Teatro Guaíra, palco de referência nacional que realizou memoráveis espetáculos, além de trazer para cá inúmeros artistas internacionais, transformou-se em um espaço de aluguel e infelizmente não realiza uma temporada oficial de concertos", acrescenta.

Segundo o maestro, no momento o Governo deveria se preocupar em reestrutrar a produção cultural do Estado. "São medidas que não vão trazer retorno imediato, porém, darão estrutura ao Estado para investir e absorver seus novos talentos", diz. Para Colarusso, celeiros da produção artística como a Escola de Música e Belas Artes do Paraná necessitam de imediata reestruturação. "O próprio Teatro Guaíra, que atualmente não tem uma coro de cantores e possui um corpo de baile deficitário, deve ter sua estrutura de pessoal reorganizada, pois sem isso a cidade ficará sem produções musicais de qualidade", completa.

Mercado crescente

O Vice-Diretor da Escola de Música e Belas Artes, João Jacob Neto, o Beda, vê com mais otimismo o futuro dos músicos em Curitiba. Artista plástico, formado pela escola na década de 70, Beda observa nos alunos de música deste fim de milênio, a mesma garra e disposição dos tempos em que era estudante. "Hoje os músicos da escola têm mais oportunidades para exibir seus talentos em vários espaços culturais que surgem na cidade", esclarece.

Para o vice-diretor, a popularização de grandes obras clássicas como óperas, ballets e peças sinfônicas, através da televisão, é um dos fatores que desperta o interesse do público. "Se a população tem acesso a estes espetáculos, os músicos terão mais consumidores para apreciarem seus trabalhos", analisa. Segundo o maestro Colarusso entretanto, hoje o público curitibano carece do hábito destas produções. "Como estes espetáculos vêm acontecendo muito raramente, o público perdeu o hábito de ir ao teatro", conta.

Artigo de luxo

Para Beda, no Brasil qualquer manifestação artística ainda é considerada uma sofisticação a que poucos têm acesso. "Esta é uma visão retrógrada, pois na verdade considero a expressão artística a grande realização do ser humano".
Segundo ele, numa sociedade extremamente competitiva, onde todos correm avidamente em busca de dinheiro, grandes talentos deixam de investir na arte para exercerem profissões que proporcionem melhor estrutura financeira. "Nossa sociedade seria mais harmoniosa se houvesse mais espaço para a arte", conclui.

Odilon Araújo Neto é jornalista



Produção paranaense

Na gravação de sua mais nova produção, Sérgio Justen conta com a participação de três grupos locais: "Tauro Trio", "Dois de Paus" e "Allegro ma non Presto", este último, integrado pelo próprio compositor.
Ao longo das 14 faixas do CD, os grupos dividem vozes e instrumentos interpretando as músicas do artista. Algumas das faixas foram gravadas apenas com o piano instrumental do músico que espera lançar seu CD no mercado até o mês de julho.
Para a gravação de seu primeiro disco, o compositor buscou o apoio da Lei de Incentivo à Cultura, através da Fundação Cultural de Curitiba. Esta lei municipal, em vigência à cerca de quatro anos, vêm incentivando inúmeros artistas locais na produção de trabalhos que ganham destaque até a nível nacional.



Em busca do sucesso

Grandes destaques paranaenses no meio musical atualmente estão em busca de aperfeiçoamento no exterior. "Acredito que este é uma etapa necessária na carreira de um músico", analisa Beda, vice-diretor da EMBAP.
Entre estes, muitos são ex-alunos da escola, considerada o berço dos artistas paranaenses,e brilham em palcos do exterior. Exemplos desses músicos são o violinista Luís Gustavo Surgik, spalla da Orquestra de Munique e a cantora Rosemara Ribeiro, que no início deste ano interpretou Carmem, de Bizet, em Kallsruhe - Alemanha, cidade onde se especializa na técnica do canto lírico