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< capa da edição de 18 de fevereiro de 1999




O novo anti-herói dos brasileiros.

Daqui a pouco vai ter brasileiro nascendo com nome estranho no registro de cartório. George Soros é tão falado na imprensa , hoje, quando o presidente Fernando Henrique é poupado. Húngaro, naturalizado norte-americano, 67 anos, Soros é o nome mais presente nos noticiários econômicos. Na véspera do ano dois mil pode que muitos brasileirinhos recém-nascidos nesta época dividam com ele o nome de batismo. Tudo porque o presidente do Banco Central, Armínio Fraga Neto , tem George Soros como ex-patrão. E a comunidade internacional do dinheiro não desiste de contar que o cidadão Armínio é cobra criada de Soros. Depois de tanta celeuma, um dos mais badalados economistas mundiais, Paul Klugman, se retratou ­ nem tanto, só amenizou o que havia dito, reforçando mais as suspeitas ­ com Fraga, da forma mais eficiente para ter alcance e, ao mesmo tempo, privacidade: via Internet.

E aqui acaba a historinha cansativa sobre economia e começa outra história que os desavisados da aldeia global brasileira ainda não descobriram: o alcance do poder da Internet sobre a mídia convencional. Tá certo. Você tem lá o seu jornal, a sua televisão, a estação de rádio favorita. Tem o seu mundinho bem contruído , protegido das invasões que pertubam seu pensamento. Fecha as janelas, puxa as cortinas . Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Computador não é prioridade. Internet, menos ainda. É tão fácil pegar um jornalão enorme, dobrar um monte de vezes, ficar com os braços doídos e com os dedos sujos de tinta ­ sem contar os alérgicos a ela ­ e ler o que você já ouviu na televisão. Com sorte e argúcia, pode descobrir um artigo que dure para sempre, pois que os jornais, como disse Jorge Luiz Borges, o escritor argentino, são "museus do efêmero".

Se o museu é permanente, a Internet é explosiva. Foi através dela que o público norte-americano, em particular, como principal curioso, e o público de outros países ficaram sabendo , on-line , as confissões sobre as urgências sexuais de Bill Clinton, presidente dos norte ­americanos . Internet é assim: o que não cabe na medida da mediocridade , cabe aqui. Enquanto a imprensa convencional publica o que chama de desmentido do economista americano Paul Klugman, vamos desfiar um pouco sobre George Soros, esse nome tão sonoro que parece saído de um estúdio de cinema.

Os milhões na América Latina.

O estrago não é tão grande que assuste. Dos 20 bilhões que o investidor húngaro ­ americano tem espalhados pelo mundo , só 980 milhões de dólares estão aplicados na América Latina. Segundo a revista América Economia, em edição ainda de 1997, a atenção de Soros para esta parte do mundo ainda era pequena. Mas é razoável pensar que depois dessa data os países asiáticos entraram em queda, os países europeus endureceram o jogo, com a criação do euro , moeda para competir com o dólar e rigidamente vigiada por um banco central que presta contas a 11 nações. E é bom pensar que com a inconsistência da moeda brasileira , que atinge Argentina e outros do Mrecosul , a América Latina pode ser, finalmente, um Eldorado para quem tem os cofres cheios.

Telecomunicações, um achado.

No final de 97, George Soros tinha 465 milhões de dólares investidos no Brasil. Àquela época, Armínio Fraga, hoje presidente do Banco Central brasileiro, trabalhava para ele , em sua carteira de investimentos, assim distribuída dentro do Brasil: Centrais Elétricas Brasil , 24 milhões ; Companhia Siderúrgica Nacional, 11 milhões ; Elétricas Brasileiras, 19 milhões ; Iven , 24 milhões; Telebrás, 192 milhões ; Telesp , 78 milhões ; Utilivest, 52 milhões. Desde o dia em que Francisco Lopes , da equipe que inventou o plano Real, anunciou a disparada do dólar frente ao Real, o Brasil denunciou oficialmente ao mundo que, para ganhar um jogo político interno, perdera o jogo econômico recém-iniciado. Passou a ser, outra vez, teúdo e manteúdo.

Dos investimentos de Soros até 97, sobressaem os feitos na então Telebrás e na Telesp , os mais volumosos. As duas empresas estatais foram privatizadas em julho do ano passado, às vésperas da campanha de reeleição do Presidente. A célebre frase "chegamos ao limite da irresponsabilidade", dita pelo comandante da operação de venda das estatatais telefônicas, ainda está na memória dos brasileiros. Provavelmente, também contabilizada pelos investidores estrangeiros. De privatização positiva, até agora, não se viu nada. Os espanhóis e italianos que investiram aqui fecharam as carteiras e as linhas fáceis que seriam implantadas. A fila aumenta e já há anúncio de que os pretendentes a telefones inscritos até agora serão indenizados pelas promessas não cumpridas. Onde estará George Soros e os 200 milhões de dólares que aplicou nessa área, antes das privatizações. Logo vamos saber. É bom ficarmos atentos à Internet. Qaundo esse capital se mover, se move primeiro aqui, no banco de informações mais escancarado e menos convencional.