O escritor albanês Ismail Kadaré mostra a danação humana
Paulo Polzonoff Jr.

Kadaré é um poeta histórico. Se o termo parece por demais forte e nos remete a Homero ou a Camões, isto talvez dê uma dimensão da involução sofrida pela literatura nos últimos séculos. Comparações anacrônicas à parte, Kadaré se destaca hoje no cenário literário mundial por escrever uma prosa cheia de elementos históricos e forte combinação de elementos poéticos para refletir a condição atual de uma das regiões mais conflituosas do mundo: os Bálcãs.

Em A Ponte dos Três Arcos, livro escrito ainda na década de setenta e só agora lançado no Brasil pela editora Objetiva, Kadaré conta a história da construção de uma ponte maciça sobre um rio num reino qualquer da Albânia medieval. A simples construção de uma ponte sobre um rio que sempre fora atravessado por balseiros causou incrível rebuliço na população. A empresa que controlava as balsas obviamente se revoltou contra aquele monstrengo da modernidade. Assim, travou uma guerra com a empresa construtora da ponte usando como armas lendas contadas por viajantes. Em meio a este trivial conflito, há o iminente medo da invasão turca. A fim de acalmar os moradores do vilarejo, os construtores emparedaram um homem num dos pilares da ponte. Aquela figura morta mas de contornos definidos sob o concreto dava a exata dimensão da tragédia que significava para os balcânicos as mudanças recentes em seus modos de vida rudimentares.

Kadaré, com A Ponte dos Três Arcos, mostra toda a rudeza de uma das regiões mais pobres da Europa e a imutabilidade da condição humana, com seus temores eternos de mitos criados por homens de interesses pouco admiráveis. Os mitos têm grande influência nesta região do mundo que foi o berço da civilização helênica. Mitos também são geradores de ódios entre os diversos povos que habitam a região e se digladiam há séculos.

Também lançado pela Objetiva, os três relatos de Três Cantos Fúnebres para Kosovo são uma lição de inteligência e revisão histórica usada para se entender um presente que nada mais é do que um passado prolongado. A guerra da Bósnia e, mais tarde, a guerra de Kosovo, revelaram ao mundo mais uma vez o ódio irracional entre as diversas etnias que compõem a península balcânica. Para explicar esta aberração, Kadaré vai à gênese da questão. Afinal, por que Kosovo é tão valiosa para aqueles que a disputam? Tudo remonta ao século XIV, quando se deu, na planície de Kosovo, uma sangrenta batalha entre cristãos e muçulmanos, um conflito que não se encerrou naquele longínquo ano de 1389, com a aniquilação quase completa dos cristãos. A guerra perdurou por estes setecentos anos e é, em grande parte, responsável pela limpeza étnica às portas do século XXI perpetrada pelos sérvios contra os albaneses. Ismail Kadaré sabe, como nenhum historiador, utilizar erudição e poesia em doses perfeitas para explicar nossos imutáveis dramas. O autor nos diz que, como um escritor, cujo conjunto da obra nada mais é do que a tentativa de escrever um só livro, todas as guerras são, na verdade, apenas uma guerra, sem um armistício definitivo.

ISMAIL KADARÉ: A Albânia é o país mais pobre da Europa. Espremida entre os mares Adriático e Jônico e os Alpes Albaneses, sempre foi uma nação conflituosa. Uma população de apenas 4 milhões de habitantes se digladia há séculos pela supremacia das duas religiões que dividem o país: o islamismo e o cristianismo. Não bastasse isto, a Albânia foi, neste século, um dos países mais afetados pela Guerra Fria porque, apesar de ter-se mantido fiel à doutrina comunista, rompeu com a então União Soviética na década de 60 sem, no entanto, se aproximar um só milímetro dos EUA. Só na década de 90 a Albânia começou o processo de redemocratização, cujos efeitos colaterais foram o florescimento de uma máfia poderosa e o crescimento geométrico da miséria. Pois foi neste ambiente hostil que cresceu e se desenvolveu uma das literaturas mais espetaculares do século XX, cujo patrimônio se resume a uma nome: Ismail Kadaré. Escritor de uma língua obscura, o albanês, que divideos pântanos e montanhas de sua terra natal com mais dois dialetos, o gheg e o tosk, Ismail Kadaré construiu, mesmo sob a pressão de um dos piores regimes totalitários do século, personificado no ditador Enver Hoxha, uma obra lida em mais de quarenta idiomas e de forte apelo universal. Não é à-toa que Kadaré tenha sido indicado inúmeras vezes para o Prêmio Nobel de Literatura. Ele é a maior prova de que, para um escritor de talento, não há barreiras.

Ismail Kadaré nasceu na pequena cidade de Gjirokastra, no sul da Albânia, em 1936. Filho de um funcionário dos correios, estudou Letras e Filosofia na Universidade de Tirana. No final dos anos 50, com seu país sob domínio soviético, foi para Moscou concluir seus estudos literários no Instituto Gorki. Teve de interromper os estudos quando Erve Hoxha rompeu relações com a URSS. Já era, então, um escritor bastante popular em seu país, com coletâneas de poesias publicadas.

Foi quando enveredou pelo romance que começaram os problemas para Ismail Kadaré. Seus livros quando não eram proibidos por decreto, o que aconteceu com quatro deles, "Concerto no Fim de Inverno", "O Palácio dos Sonhos", "O Monstro" e "Luar", eram legados ao limbo pela proibição de qualquer referência a eles na imprensa albanesa.

Mesmo sob repressão, Kadaré jamais abandonou seu país. Sentia-se peça-chave na luta pela democracia. Em 1985, com a morte do ditador Enve Hoxha, que governava desde o término da Segunda Guerra Mundial, Kadaré teve uma passagem relâmpago pela política, tendo sido eleito vice-presidente da Frente Democrática. Em 1990 Kadaré surpreende seus conterrâneos se auto-exilando na França, onde reside desde então.

Ismail Kadaré é um escritor de um país que sempre viveu dicotomias: Oriente/Ocidente, Islamismo/Cristianismo, Capitalismo/Comunismo. É absorvendo a alma conflituosa do povo albanês que Kadaré constróis suas histórias. O romancista não aceita rótulos: não é nem um escritor político, balcânico, tampouco se diz adepto do realismo mágico de Gabriel García Márquez, como querem alguns críticos. Sua literatura se baseia na forte tradição oral de seu povo e é sempre habitado por mitos e personagens históricos de um passado muito remoto, cujos ecos nos chegam até hoje. É a partir da história remota dos tempos imemoriais que Kadaré analisa a imutável história da Humanidade.

A obra de Kadaré adquire um caráter universal, razão de seu sucesso no mundo todo, pela idéia da imutabilidade da História. Para Ismail Kadaré, um conflito entre aldeões no século XIV pode muito bem explicar os ataques aéreos a Kosovo ou o eterno conflito árabe-palestino.As obras de Ismail Kadaré disponíveis em português são: "Abril Despedaçado", "Concerto no Fim do Inverno", "Dossiê H", "O Palácio dos Sonhos", todos editados pela Companhia das Letras, "Três Cantos Fúnebres para Kosovo" e "A Ponte dos Três Arcos", aditados pela Objetiva.

PAULO POLZONOFF JR. é jornalista e colaborador de outras publicações na internet . E-mail :
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