O uso da Internet na escola é uma realidade imutável. Como professores e escolas estão lidando com a tecnologia: aliada ou inimiga?
Cristina Balerini

Pais que têm filhos em boa escola particular, da 1ª série primária ao 3º colegial, sabem: material básico hoje em dia é caderno, livro, caneta e computador ligado à Internet. Nos EUA, 95% dos estudantes navegam pela Internet pelo menos uma vez por semana. No Brasil, embora não haja estatísticas a respeito, é provável que o número seja igual entre os alunos de classe média alta. Os professores agora orientam os alunos para que façam pesquisas mais aprimoradas na Internet e entrecruzem diferentes informações e idéias sobre os assuntos em estudo.

Talvez para você, professor, ainda não seja comum a imagem de uma criança, na faixa dos cinco ou seis anos, se divertindo e pesquisando na Internet. Ou você não consegue se sentir muito à vontade tendo que incorporar o computador e toda a nova linguagem que chega com ele ao seu dia a dia Não interessa. O fato é que a rede mundial de computadores conseguiu atingir, em quatro anos, mais de 50 milhões de usuários em todo o mundo, sendo que, destes, em 1998, 3 milhões eram crianças com menos de 12 anos que acessavam a rede. A previsão é de que, em 2002, esse número ultrapasse os 20 milhões de usuários só nessa faixa etária.

Talvez para você, professor, ainda não seja comum a imagem de uma criança, na faixa dos cinco ou seis anos, se divertindo e pesquisando na Internet. Ou você não consegue se sentir muito à vontade tendo que incorporar o computador e toda a nova linguagem que chega com ele ao seu dia a dia Não interessa. O fato é que a rede mundial de computadores conseguiu atingir, em quatro anos, mais de 50 milhões de usuários em todo o mundo, sendo que, destes, em 1998, 3 milhões eram crianças com menos de 12 anos que acessavam a rede. A previsão é de que, em 2002, esse número ultrapasse os 20 milhões de usuários só nessa faixa etária.

O perfil dos alunos está mudando e os professores não estão conseguindo acompanhar essa evolução, precisando de um olhar atento a essas transformações que apontam dia a dia em sua sala de aula. Na verdade o professor precisa perceber e tentar, mesmo que por intuição, essa nova forma de fazer, transformando a aula em algo mais atrativo, construtivo e inovador. Primeiro, perceber a afetividade como um elemento muito precioso na relação professor/aluno e deixar que essa faça parte de todo o processo, possibilitando-o conhecer o desejo de aprender de cada um, e descobrindo o seu próprio desejo de conhecer.

Nesse contexto, é inegável que o professor acabe por enfrentar um período de crise de identidade pessoal e identificação profissional, pois a escola está exigindo dele uma nova postura, apesar dela mesma ainda não saber o que quer. É por isso que se faz necessário, cada vez mais, saber inventar. Isso mesmo! Aproveitar todas as tecnologias disponíveis e desenvolver uma proposta pedagógica que estimule o pensamento, a autoria, a autonomia, a cooperação e a responsabilidade de cada aluno.

A opinião dos educadores

"O acesso à informação é muito mais ágil com o uso de computadores e da Internet. As informações podem ser atualizadas muito mais rapidamente. Por exemplo, se utilizarmos um software do gênero enciclopédia, as informações nele contidas podem ficar ultrapassadas muito rapidamente. Mas as mesmas informações podem ser revistas e atualizadas em questão de segundos na Internet", analisa a coordenadora de informática do Colégio Magno, Rosemary Soffner. Cabe salientar que apesar das vantagens que os computadores podem oferecer, nada será de fato realizado se não houver professores planejando, acompanhando e criando situações de aprendizagem favoráveis. O professor deve facilitar que os alunos trabalhem com as informações obtidas e as transformem em conhecimento.

Para a educadora da Faculdade de Educação da USP, Stela Piconez, o aparecimento de cada novo meio de informação deve ser reconhecido pela escola por causa de suas possibilidades educativas. "A Internet, como novo meio de informação, enriquece as maneiras de comunicar, representar e arquivar os saberes descobertos e criados pela humanidade, bem como amplia o desenvolvimento ou aquisição de habilidades de acessar, tratar e aplicar as novas informações em situações de uso e convívio social. Além disso, ela expõe os estudantes ao multiculturalismo mundial, permitindo transformações e novas maneiras de pensar", complementa Stela.

São muitas as vantagens e desvantagens que o uso da Internet pode proporcionar aos estudantes. São dois rumos que essa aparente ajuda pode proporcionar. Ao mesmo tempo em que se tem um mundo de informações ao simples clique no mouse, a quantidade de informações inúteis é grande na mesma proporção. A psicopedagoga Melanie Grunkraut alerta para a dificuldade de se filtrar a informação adquirida pela rede. "A publicação impressa conta com pessoas responsáveis sobre ela. A Internet não. Pode-se colocar qualquer tipo de informação percorrendo o mundo. É por isso que acredito que o papel da escola, cada vez mais, é o de formar o cidadão crítico", diz Melanie.

Na opinião de Cláudio Salles, responsável pelo Programa Nacional de Informática na Educação - Proinfo, ao buscar informações na Internet o aluno é sujeito do processo de construção do seu conhecimento: ele busca, analisa, avalia, integra e modifica informações úteis para tal processo. Outro argumento utilizado contra o uso do computador na educação é a desumanização que a máquina pode causar na educação. Dependendo do professor sim, se ele se colocar na posição de somente passar informações aos alunos. Na melhor das hipóteses ele usará o computador uma hora por dia. "Pensar que esse nível de exposição o transformará em um ser robótico e desumano é subestimar a capacidade do ser humano. O computador está cada vez mais fazendo parte de nossa vida", avalia o professor José Armando Valente.

Como trabalhar informações

Alguns críticos acreditam que essa exploração da rede, em alguns casos, deixa os alunos sem referência, com sensação de estarem perdidos ao invés de serem auxiliados no processo de organizar e digerir a informação disponível. O papel do computador é o de provocar mudanças pedagógicas profundas ao invés de automatizar o ensino ou preparar o aluno para ser capaz de trabalhar com o computador. Como pode uma máquina fazer o aluno pensar para aprender? Construindo o seu próprio saber, experimentando, desafiando a máquina, aguçando sua curiosidade, tornando-o mais criativo e inventivo.

O professor deve deixar de ser o repassador do conhecimento e passar a ser o criador de ambientes de aprendizagem e o facilitador do processo de desenvolvimento intelectual do aluno. Mas como fazer isso? Como as escolas estão preparando esse profissional para que o enfoque de seu trabalho seja direcionado para o auxílio ao aluno no seu processo de pesquisa? Na opinião de Rosemary, do Colégio Magno, existem dois caminhos, não excludentes: um deles é a escola estar investindo em cursos para seus profissionais. O outro é o investimento que o próprio educador deve fazer em benefício de seu trabalho e sua carreira.

"Os professores ainda nao aprenderam a usar a Internet com seus alunos. Acham que utilizar o computador e a Internet na escola e só para pesquisar, sem um direcionamento. Os alunos perdem muito tempo procurando e se "perdendo" na Internet. Os professores deveriam preparar estas atividades com antecedência, pesquisando os melhores sites, indicando e estabelecendo um roteiro de pesquisa. Desta forma a Internet não seria utilizada de "forma errada", avalia Silvia Fichmann, da Escola do Futuro da USP, que realiza parcerias com o Rotary Club para implantar projetos de informática em escolas públicas. Silvia acredita ainda que o professor deve sempre se atualizar em relação as novidades da Internet através da leitura de revistas especializadas, participação em listas de discussão, em congressos, cursos, troca de informações com profissionais e pesquisa constante na Internet.

Colocar um aluno diante de uma tela de Internet, por si só, não acontece nada. Quando planejado pode enriquecer e diversificar o que se usa tradicionalmente no ensino (biblioteca, livros, tv e vídeo, lousa e giz), além de motivar os estudantes, que devem ser envolvidos em uma pedagogia de projetos. "A maioria dos professores acredita que o uso da Internet estimula os alunos a aprender e isso leva ao melhor aproveitamento das matérias. Caminhamos para um mundo em que a educação utilizará, de forma crescente, recursos multimídia. O livro e a mídia impressa continuarão sendo largamente utilizados", acredita Claudio Salles, do Proinfo.

Uma geração preparada

Mas qual a idade mais adequada para a utilização desses recursos? No Colégio Magno, por exemplo, as crianças usam o computador desde os três anos de idade, conta Rosemary. Não existe, segundo os especialistas, uma idade certa para a introdução dessa ferramenta nos estudos. O que importa é que a criança ou jovem esteja preparado para utilizar a máquina com domínio. "É preciso compreender que o computador maneja símbolos e a aprendizagem, significados. A máquina pode editar um texto, criar banco de dados, fazer desenhos, projetos e gráficos, planilhas de cálculo. Pode realizar ações humanas (calcular, ensinar, decidir arquivar, etc.) e pressupõe desenvolvimento de habilidades e metas cognitivas (resolver problemas, algoritmizar tarefas, planificar, inferir, generalizar, comparar e integrar hipertextos, etc.) e ser utilizado por qualquer abordagem pedagógica. No entanto, a inexistência de um projeto político-pedagógico para as tarefas da educação escolar é que pode colocar limites, inclusive de faixa etária", alerta a educadora Stela Piconez.

Não há como evitar que seu aluno chegue à escola querendo mexer e conhecer as vantagens do uso do computador e da Internet. Para uma geração que conta, na sua maioria, com pais que utilizam com freqüência o computador, jovens e crianças têm o interesse despertado muito mais cedo. É claro que existe sempre a preocupação: será que essa ferramenta está sendo usada de forma correta? Como controlar o acesso, evitando que o aluno se disperse durante sua pesquisa? Salles, do Proinfo, acredita que, mais uma vez, é preciso destacar a importância do papel do professor no processo de ensino-aprendizagem. "O fato de haver na Internet sites que contenham informações que representam perigo para o processo de formação do aluno não deve ser impeditivo do uso da rede. Professores capacitados sabem colocar limites ao uso da WEB".

A Escola Móbile, que vem utilizando a Internet desde 1994, segue algumas regras para que o uso da rede não seja aleatório. Eliana Braga, coordenadora pedagógica e de informática educacional explica que, no caso dos estudantes de educação infantil, o professor opera o site junto com o aluno, interagindo com ele durante a navegação. Já no ensino fundamental, o professor pesquisa com antecedência o site mais adequado à sua programação. Para as últimas séries do ensino fundamental o professor dá o tema e pede a pesquisa, indicando os sites mais interessantes sobre o assunto, aceitando também outros, desde que atinjam o objetivo da pesquisa. No Ensino Médio a única exigência é atingir a meta dada pelo professor.

Existem sistemas que podem bloquear o acesso a alguns sites. Mas as escolas acreditam que o melhor caminho é o da conscientização e o da educação. O aluno tem que saber que o horário de estudar e fazer pesquisa deve ser respeitado. Mas, na suas horas vagas ele pode visitar sites de esportes, lazer, etc. "A escola não pode evitar que seus alunos utilizem a rede para pesquisas escolares pois essa é uma realidade imutável. Existem pesquisas que apontam o estímulo que a Internet provoca em alunos que se sentem desmotivados para a aprendizagem. Além disso, pensando nas habilidades e no ritmo individual de cada aluno, o uso do computador e a possibilidade de escolha de fontes diferentes de informações, atendendo as necessidades individuais", acredita Silvia Fichmann, da Escola do Futuro.

Portais de conhecimento

Muitas escolas, como o Colégio Bandeirantes, têm criado alguns projetos para seus alunos, como o Cidadão na Linha, através do qual é possível que o aluno mantenha discussões sobre projetos de cidadania com jovens de diversas partes do mundo, criando assim um processo de interação com outras culturas. Segundo Mário Abbondati, coordenador de tecnologia educacional do Bandeirantes, todos os alunos e professores possuem uma conta no provedor do Colégio. "Em um dos nossos projetos, os alunos tiram dúvidas de Matemática por e-mail (Projeto Selfmat). Muitos são os professores envolvidos nos projetos que têm a Internet como veículo fundamental", explica Abbondati.

Outra escola que tem desenvolvido projetos de trabalho utilizando a Internet é a Móbile. Eliana Braga conta que este ano está sendo realizado um projeto de envio de cartas e e-mails dos alunos de 1ª série com escolas do interior de São Paulo e de Portugal. "Outros projetos estão sendo realizados com escolas de países como Suécia e Estados Unidos, abordando aspectos culturais e da fauna e flora locais". Outro projeto é destinado aos alunos de 4ª à 6ª série abordando o tema sexualidade. Os alunos podem, pela Internet, trocar opiniões e informações a respeito do tema com professores e especialistas, através de chat, fórum de debates e vídeoconferência.

O filósofo espanhol José Antônio Marina diz que a liberdade é uma possibilidade relacional e mediada pelos valores. Diz ele que, apesar de desejarmos a autonomia, devemos lembrar que ela é filha da heteronomia, ou seja, que para sermos autônomos é imprescindível que saibamos os limites, e que na vida de uma criança, os limites são muitas vezes de responsabilidade integral do adulto que com ela convive. Isso tudo para dizer que, às vezes, especialmente quando as crianças são pequenas, um bom não, uma seleção feita pelos pais, horários estabelecidos, um filtro na rede é essencial. O mesmo vale para a escola. Não se deve, segundo o filósofo, deixar que tudo seja livre, sem limites, pois isso não gera a autonomia que se deseja.

- www.bibvirt.futuro.usp.br/index.html - este site é um dos mais visitados do Brasil, pois conta com um acervo para estudantes de todos os níveis.

- www.sercomtel.com.br/matematica - site com dicas, cálculos rápidos, problemas, jogos e explicações com exemplos sobre teoremas matemáticos.

- www.estudioweb.com.br - traz uma relação com mais de 4 mil sites que podem ser utilizados por alunos em trabalhos escolares de todos os tipos.

- www.nossoamiguinho.com.br/estude.htm - site com exercícios de matérias do ensino fundamental para ser feitos no computador.

- www.escolanet.com.br - o site apresenta projetos e endereços eletrônicos de escolas brasileiras e informações sobre matérias em geral.

- www.monica.com.br - um dos sites mais procurados por crianças desde a pré-escola. Nele podem-se fazer cartões, jogo de memória, quebra-cabeça, entre outras atividades.

Cristina Balerini é jornalista. Já trabalhou na produção de textos e programas para rádio e TV nas áreas de Recursos Humanos, saúde, qualidade de vida e internet. Atualmente trabalha na Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A rede mundial de computadores conseguiu atingir, em quatro anos, mais de 50 milhões de usuários, em todo o mundo. Desses, 3 milhões são crianças com menos de 12 anos. Até 2002 serão 20 milhões nessa faixa etária.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É inegável que o professor acabe por enfrentar um período de crise de identidade pessoal e identificação profissional, pois a escola está exigindo dele uma nova postura, apesar dela mesma ainda não saber o que quer.

 

 

 

 

 

 

 

 

"Ao mesmo tempo em que se tem um mundo de informações ao simples clique do mouse, a quantidade de informações inúteis é grande na mesma proporção" Stela Piconenez, Faculdade de Educação da USP.

 

 

 

 

 

 

"Ao buscar informações na Internet, o aluno é sujeito do processo de construção do seu conhecimento: ele busca, analisa, avalia, integra e modifica informações úteis para tal processo".
Cláudio Salles, Programa Nacional de Informática na Educação- Proinfo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Como pode uma máquina fazer o aluno pensar para aprender? Construindo o seu próprio saber, experimentando, desafiando a máquina, aguçando sua curiosidade, tornando-o mais criativo e inventivo.

 

 

 

 

 

 

 

"Caminhamos para um mundo em que a educação utilizará, de forma crescente, recursos multimídia". Cláudio Salles, do Proinfo.

 

 

 

 

 

 

 

 

"O que importa é que a criança ou jovem esteja preparado para utilizar a máquina com domínio". Rosemary Soffner, Colégio Magno, S.P.

 

 

 

 

 

 

 

"Existem pesquisas que apontam o estímulo que a Internet provoca em alunos que se sentem desmotivados para a aprendizagem". Sílvia Fichmann, Escola do Futuro da USP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Muitos são os professores envolvidos nos projetos que têm a Internet como veículo fundamental". Mário Abbondati, Colégio Bandeirantes, S.P.