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< capa da edição de 19 de janeiro de 1999




Ameaças e afagos ante as dificuldades

"O Brasil público, o Brasil de Brasília, o Brasil dos políticos é excessivamente caro".A frase saiu da boca de um economista, Paulo Rabello, e foi dita num debate que teve todos os ingredientes para avaliar o desencanto que toma conta dos que estão próximos da opinião internacional. Foi no programa Conta Corrente, comandado pela correta e inquisitiva Tamara Leftel, jornalista exclusiva da comunicação a cabo. Ficou restrita a assinantes a mais perfeita definição da incompatibilidade que cerca os poderes em Brasilia. Nesse sentido, o Brasil dos políticos e do poder público é distante da necessidade da população brasileira.

Não é preciso ir longe para deparar com essa indiferença. O gasto do governo está na raíz do problema da falta de liquidez do Brasil. Depois de exposta a fragilidade do Real , as propagandas institucionais continuam a consumir o dinheiro público em sistemáticas inserções nos canais de televisão destinados ao grande público. Daí se conclui que a falência brasileira tem mais um sócio: os meios de comunicação, de quem o citado Brasil público é grande cliente. Se o governo está descapitalizado , qual a primeira providência a tomar? Cortar gastos, o que faz qualquer economia doméstica. Essa vertente sem fim do Estado como provedor não pode continuar a ser entendida como um dízimo obrigatório do governo com qualquer setor, principalmente o das comunicações, capital privado que lucra por concessão do Estado.

Tivesse o presidente da República a mesma firmeza com esses cobradores compulsórios que tem com os aleatórios, a quem ameaçou já com decretos caso os preços subam em decorrência da alta do dólar ­ como se fosse possível regular o mercado só com retórica. Faz lembrar José Sarney nos tempos do Cruzado , quando tentava laçar boi no pasto ­ estaria o país com parceria forte dentro de suas próprias fronteiras. É preciso que o governo deixe de contemporizar com os inflacionários imediatos ­ a imprensa, o Congresso, alguns setores produtivos que vivem de subsídios oficiais ­ e faça a sua parte como chefe do Estado .

Se assim não for, veremos exemplos dúbios de prática política, como o senador Antonio Carlos Magalhães, presidente do Congresso Nacional, dando declarações de que o Presidente está bem, ele suporta bem este problema momentâneo, reduzindo a incoerência da classe política a uma cultura centenária. O grande pecado político do presidente Fernando Henrique foi ter negociado seu próprio poder, impondo a reeleição ao Congresso Nacional, antes de garantir o poder do país que preside e da moeda que patrocina. A moeda está correndo, como todas as anteriores, o risco de indexação. O país está profundamente encabulado frente à incapacidade de dominar a rebeldia perdulária. E o Presidente precisa que o decano da cultura inflacionária lhe passe a mão na cabeça. Não deveria ser assim.