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< capa da edição de 21 de janeiro de 1999




Histórias de pouca comunicação.

"Quem gostaria?" Essa pergunta todos já ouviram alguma vez ao telefone. É uma senha de triagem. Se você tem firmeza ao se identificar, a pessoa chamada dará uma resposta. Mas para quem não conhece o código da hierarquia, vem a espantosa resposta: "Fulano não se encontra". Nem poderia, fulano não está se procurando. É só uma pincelada nas difíceis relações telefônicas , e acontece quando há alguém do outro lado da linha. O mais comum, hoje, é uma resposta eletrônica. Tecle um monte de dígitos, outros para dizer o que quer, mais um para dizer o que não quer, e acabe num aguarde atendimento , acompanhado de uma musiquinha made in China. Os telefones não servem mais para comunicar pessoas, a menos que seja uma ligação particular.

Mas servem os telefones para impedir a comunicação pessoal. Quantas vezes alguém vai pessoalmente falar com qualquer instituição pública ou atividade comercial e se vê perdendo tempo enquanto o interlocutor atende o telefone. A conversa de quem está alí, de corpo presente, é interrompida por alguém estranho que corta o assunto sem nenhum problema . Uma cultura telefônica que desrespeita a quem teve a educação de procurar um contato pessoal. A falta de atenção ­ para dizer o mínimo ­ vem também do lado do visitante, que interrompe qualquer raciocínio alheio para atender o celular particular que está tocando. Aí é a vez do outro esperar.

O comércio da voz

Mensagens gravadas são uma intromissão na vida das pessoas. Durante as campanhas eleitorais os telemarktings eram dos recursos mais usados. Depois de um padronizado cumprimento lá vinha a cara propaganda, rastreando o catálogo telefônico . Privatizadas, as estatais prometem mais linhas , melhor preço, facilidades de acesso. Entregam um pacote bem diferente , acompanhado pelo kit eletrônico das comunicações atuais. Em caso de dispensar o telefone e ir pessoalmente resolver qualquer assunto e, no meio da conversa, um intruso chamado desviar a atenção de seu diálogo, faça o possível para não perder a viagem e a chance de se comunicar. Saque seu celular e ligue para a pessoa que está à sua frente. Fale com ela pelo telefone, vis a vis. Com todo certeza, a conversa não será interrompida. Se educação não há, existem meios de demonstrar isso .

Memória da tecnologia

Em 1982 a Telepar ­ Telecomunicações do Paraná ­ então presidida por Gilberto Garbi, hoje presidente da Nec do Brasil, nem imaginava que em duas décadas estaria privatizada. Para comemorar os cem anos da telefonia paranaense, Garbi resolveu publicar um livro com as histórias mais curiosas dos usuários de telefones, em todo o Brasil. Incumbiu esta editora de Fortuna e Virtude da pesquisa e edição do livro. Muitos textos chegaram, de todos os estados, e a redação das histórias precisou ser uniformizada . O trabalho rendeu o "Telefolclore", 90 folhas de humor e registro sobre a evolução no uso das telecomunicações. Alguns dos relatos valem a pena recontar, tantos anos depois:

"Não foi em Portugal".

Ficou famosa a lista telefônica publicada na Bahia vários anos atrás.Em uma relação de mais de uma página foram publicados todos os telefones do Governo do Estado. Os números daqueles que não deveriam figurar na relação apareceram acompanhados da palavra SECRETO, entre parênteses.

"Um sueco carioca ".

Depois da Copa de 58 os brasileiros passaram a ter grande simpatia pelos suecos. Gente organizada, trabalhadora, civilizada. Só que, em matéria de humor, brasileiro não leva sueco a sério, com perdão do trocadilho.

Por surpreendente que possa parecer, conta-se que um diretor da Eicsson do Brasil foi o autor de uma das mais espirituosas observações sobre o comportamento nativo. Certa vez ele recebeu o então presidente Geisel na fábrica da empresa e o acompanhou durante a visita, explicando a operação da fábrica e fornecendo cifras e dados.

Interessado, o presidente Geisel perguntou:

- Quantos empregados trabalham na Ericsson?
- Mais ou menos a metade, foi a maliciosa resposta.

"Traído pelo entusiasmo".

Renato Johnsson, deputado federal várias vezes depois de ter presidido a Telepar, nos anos 70, estreava com presidente da estatal e foi dar uma entrevista, ao vivo, na televisão.Advogado, não familiarizado com a técnica das telecomunicações, foi respondendo a tudo que perguntavam, seguindo o "script"preparado. Explicava: o telefone é diferente da luz elétrica, onde muitos usuários podem ser ligados nos mesmos fios. Em telefonia, cada usuário precisa de um par de fios.

Os assessores aplaudiam nos bastidores mas mudaram de cor quando ele completou:

- Sim, cada telefone precisa de um par de fios, porque a voz vai por um fio e volta pelo outro.