Quem tem medo de Fausto Wolff?
Paulo Polzonoff Jr.

Fausto Wolff lança O Nome de Deus e escreve seu nome entre os melhores escritores do Brasil.

Fausto Wolff não é figura estreante no cenário literário nacional. Já escreveu mais de uma dezena de livros. Mas eu não ficaria surpreso se nenhum dos leitores deste artigo o conhecesse. Fausto Wolff não está em nenhum caderno cultural do Brasil. Fausto Wolff é um maldito. Não um maldito voluntário, como Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, que se recusam a dar entrevistas e serem fotografados. Fausto Wolff é um maldito porque a imprensa não quer saber dele. Não importa se seu romance À Mão Esquerda (Civilização Brasileira, 1996) tenha sido um dos finalistas do Prêmios Nestlé de Literatura e tenha ganho o Prêmio Jabuti de Melhor Romance: os cadernos de cultura sequer citam seu livro de contos recém-lançado pela Bertrand do Brasil, O Nome de Deus.

O Nome de Deus pode ser considerado uma continuação de seu livro de contos anterior, O Homem e seu algoz (Bertrand do Brasil, 1998). Trata-se de dez histórias, escritas entre o panfletário e o poético, sobre dez diferentes tipos humanos. A arquitetura dos personagens por vezes é feita sobre tijolos ideológicos. Não se assunte ao ler críticas à elite, à imprensa ou aos políticos no mesmo tom de uma conversa de botequim. É preciso ter perseverança para ultrapassar o que pode parecer um retrato malfeito de uma burguesia de novela ou de um proletariado de manifesto comunista até chegar ao singelo, ao detalhe, à epifania do texto. Um caminho às vezes espinhoso mas, acredite, compensador.

Fausto Wolff leva ao extremo a máxima de Umberto Eco: "Todo o mundo ficcional se apóia parasiticamente no mundo real, que toma por seu pano de fundo." Seus contos têm a realidade enraizada nas histórias. São comuns as citações de casos que estiveram nas primeiras páginas dos jornais ainda ontem, como as privatizações e a queda do edifício Palace I, construído pelo deputado Sérgio Naya. Tem-se a impressão de se estar lendo um conto escrito ontem mesmo. Os contos de Fausto Wolff nos tocam pelo real absurdo da vida cotidiana e pela proximidade de seus personagens. Os personagens andam pelas ruas que você conhece, bebem nos bares que você freqüenta, lêem os jornais que você lê e se parecem, e muito, com esta multidão sem rosto com a qual você convive.

Não há redenção nas histórias de Fausto Wolff. A crueldade é toda ela destilada em contos como "A Vidente", no qual até tão propagada solidariedade não passa de um embuste. Ou então em "O Passarinho", que conta a história de um louco tão desgraçado e inviável quanto os personagens de Dostoiévski. Fausto Wolff é um escritor realista in extremis. Talvez seja por isso que a imprensa o ignore tão solenemente: nada pior do que saber que as sanguinolentas e escandalosas manchetes diárias são mesmo verdadeiras.

PAULO POLZONOFF JR , 21 anos, é estudante de Jornalismo e colaborador de Fortuna e Virtude e outras publicações exclusivas para a Internet..