Cidade cobiçada , cidade ameaçada.
Marilena Braga

Cassio Taniguchi é um bom prefeito? Mais ou menos. Ele será reeleito? Talvez. Há perigo de que enfrente um segundo turno nas próximas eleições? Muito provavelmente. E se for para segundo turno, ganha? Só vendendo todos os cargos da prefeitura municipal para todos os partidos. Quando? Antes ou depois?

Todas essas perguntas e as presumíveis respostas estão começando a ser feitas na boca do mês de julho, quando inicia o ano eleitoral de 2000. O partido do prefeito de Curitiba, PFL ( ele foi eleito pelo PDT, mas isso não tem nenhuma importância , partido é roupa de domingo) saiu na frente na ofensiva eleitoral pelas prefeituras do Paraná. Fez o PFL um ruído grande em Curitiba e outro em Foz do Iguaçu, trazendo o presidente nacional da sigla para afirmar, solene e vestuto, que vão ganhar de ponta a ponta. Querem a maioria dos 399 municípios do estado. Querem Curitiba , a capital, e querem Londrina, a capital do Norte do Paraná. E querem Maringá, querem Foz, ( Oeste) querem Pato Branco ( Sudoeste), Cascavel ( Oeste) Ponta Grossa ( Sudeste) Guarapuava ( Centro) .

Querem os municípios da Região Metropolitana de Curitiba , alguns deles hoje emergentes da economia, dentro do circuito das multinacionais de automóveis. Os outros, uma pobreza de dar dó. Pois todos o PFL quer. Assim como quer também o PSDB. Não é município? É partido? E que importância tem? Importante é o governo do estado, em 2002. Dentro do princípio de que se você não pode vencer o inimigo deve se unir a ele, o PSDB tem na aliança com o PFL o único caminho de vitória no Paraná, para que o senador Álvaro Dias consiga o governo estadual, como sucessor de Jaime Lerner. Um cálculo óbvio para um parvo, quanto mais para os estrategistas políticos que acabam uma eleição já estão planejando a próxima.

E onde ficam os pequenos partidos nessa ganância dos grandes ? Esperneando, como faz o PDT - que quer parte dos salários dos deputados federais eleitos pela sigla, mas que debandaram para outras legendas - ou como o PTB, que reúne seus cinco deputados estaduais com votação expressiva em Curitiba para lançar uma candidatura própria. Tem dois nomes com trunfos escondidos: Algaci Tulio, o eterno preterido do grupo de Jaime Lerner ( era o candidato do PDT quando renunciou para Lerner em 88, na chamada campanha dos doze dias) . Aqui, uma explicação, pois Fortuna e Virtude não é lido só no Paraná :

Em 1988 Jaime Lerner, hoje governador do Paraná, queria voltar a ser prefeito de Curitiba, cargo que ocupara já uma vez, como nomeado pelo governo militar, em 74. No entanto, não tinha domicílio eleitoral em Curitiba, pois havia transferido o domicílio para o Rio de Janeiro, onde foi auxiliar de Leonel Brizola, àquela época governador do Estado do Rio. Sem domicílio, nada feito. Mas as mágicas acontecem. As leis eleitorais foram mexidas e Lerner, doze dias antes da data das eleições, substituiu o então deputado estadual Algaci Tulio como candidato à prefeitura de Curitiba. Ganhou de lavada e Algaci ficou seu vice. Lerner fez seu sucessor, em 92: Rafael Greca, hoje ministro do Esporte e Turismo. Quem foi o vice de Rafael? Algaci. Assim também como foi o vice de Taniguchi, eleito em 96. Cansado de ser escadinha do poder, Algaci Tulio renunciou à vice-prefeitura para assumir novo mandato de deputado estadual, conseguido nas eleições de 98.

Finda a explicação, podemos retornar ao PTB, sigla onde Algaci está hoje, sua nova roupa de domingo. Ele tem interesse em ser o candidato a prefeito de Curitiba. Afinal, tem sido vice desde 88. Quem também quer a candidatura a prefeito é Beto Richa, duas vezes deputado estadual, ex- PSDB , afilhado político do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Anibal Curi ( o Antonio Carlos Magalhães do Paraná) , filho do ex-governador José Richa, uma das chamadas "figuras de proa"da política do Paraná. Tão esgotado politicamente que o presidente Fernando Henrique o quer como seu articulador político. Podem imaginar alguém do Paraná, este estado que fez fama de timido mas é avarento e exclusivista, refazendo um prestígio presidencial sem retorno?

Pois Beto Richa não se parece com o pai no modo de se conduzir dentro da política. É mais flexível, não leva compromissos partidários a sério, pois sabe que as domingueiras duram apenas um dia. Sai candidato sabendo que não ganha, mas pode depois negociar o apoio no segundo turno ao provável vencedor, ou, melhor, pode negociar apoios a ele mesmo, se chegar ao segundo turno em 2000. E se o PTB deixar, porque há um grupo do partido acomodado no colo de Jaime Lerner e que só sai de lá se encontrar mamadeira mais confortável. O PTB, como sempre ao longo de sua história, está acostumado a ser coadjuvante. Dá para acreditar que tem medo do poder. Se assim é, que venham Algaci Tulio e Beto Richa para movimentar a cinquentenária sigla . Já é hora de mais oxigênio para o partido que, tantas vezes moribundo, se recusa a morrer.