Cinco, o número da indefinição
Marilena Braga

Desatentos não terão conforto no futuro. E o futuro é o governo do estado do Paraná em 2002. Um candidato já está declarado: o senador Álvaro Dias, do PSDB. Outro já disse que é e vai brigar dentro do PFL para conseguir: Rafael Greca, ministro do Esporte e Turismo. Pelo PMDB, outro candidato já tem cadeira cativa: o senador Roberto Requião. E ainda tem outros dois nomes que dependem de muitos fatores. Um deles, Cassio Taniguchi, atual prefeito de Curitiba, que só poderá impor seu nome ao PFL, como favorito do atual governador Jaime Lerner, se conseguir se reeleger. O outro nome é feminino, o que apresenta, até o momento, menos rejeição por parte do eleitorado do Paraná: Emília Belinati, do PTB, vice-governadora do estado, ainda indefinida sobre se disputará o governo ou o Senado, em 2002.

Esses são os nomes. Os eleitores - ocupados na difícil, e cada vez mais difícil, vida brasileira - nem suspeitam que seus destinos já estão sendo decididos nos conchavos partidários e nas negociações políticas. Os chamados analistas políticos da imprensa - a grande maioria com o rabo preso e por isso sem condições de fazer um comentário isento - apostam que o PFL, sigla para onde se mudaram os antigos caciques do PDT - leva todos os cargos majoritários, incluindo aí a prefeitura de Curitiba, em 2000, as prefeituras municipais das principais cidades do interior , o Senado, em 2002 ( quando duas vagas vão ser renovadas) e o governo do estado. Apetite os pefelistas têm. Resta saber se haverá sobre a mesa iguarias que sejam do agrado do partido mais fisiológico do Brasil.

Se Cassio Taniguchi não conseguir a reeleição, quem sai fortalecido? O PSDB de Álvaro Dias. Sem a prefeitura de Curitiba, fica mais fácil para o senador tucano exigir do PFL um apoio ostensivo ao seu nome, ao invés do acordo branco que fizeram - unilateralmente , ao menos da parte de Álvaro - para o ano de 2002. Mas se Lerner fez acordo com Álvaro, como ficam Rafael Greca e Cassio Taniguchi ? Com Taniguchi é fácil. Perdendo ou ganhando de volta a prefeitura de Curitiba, já é nome descartado para o governo. Só vira prefeito de novo com o aval dos tucanos. Esse será o seu prêmio. Se concordar, o PSDB vai com ele para fortalecer Álvaro em 2002. Se titubear, perde os tucanos e a prefeitura. Cama de gato.

Sobre Roberto Requião não há muito o que falar. Ele é político de um lado só. Fora de moda, porque tem convicções. Muito poucos, no Paraná de hoje, têm as mesmas convicções dele. Não tem propostas. Tem indignação. Nada mais fora de propósito. Quando o povo já está indignado, não quer ver seu reflexo e semelhança. Quer o diferente. É aí que entra Emília Belinati, do PTB, mas nem tanto. Corre o comentário de que ela está insegura com o partido. O PTB, não se sabe porque motivo - ou se adivinha? - não parece entusiasmado em ter candidato próprio para o governo do estado, daqui há mais de três anos. Nada faz para se aproximar da atual vice-governadora ( que elegeu o governador Jaime Lerner ajuntando seu nome outra vez na chapa ) e não diz a que veio e porque veio. Dentro em breve ganha o título de murista, antes um aposto dos tucanos.

Mas Emília tem chances redobradas, comparada aos outros. Assumiu o governo do estado dezenas de vezes ( o governador Lerner é um globe-troter de primeira ) e seu comportamento encanta os paranaenses. Viaja todas as semanas para o interior do Paraná, no que começa a ser imitada pelo governador , que receia o crescimento do prestígio dela entre os prefeitos. Resumindo: Emília é candidata, só não diz que é. Faz o jogo feminino: fala o contrário do que pensa. Ninguém a rejeita. Como o verbo vicegovernar não existe ( ela mesma está sempre dizendo isso nos seus discursos) não tem os dissabores do cargo. Se for candidata, está de cara limpa. Basta apenas que convença o marido, o prefeito de Londrina, ( segunda cidade do Paraná)Antonio Belinati, que seu prestígio e suas chances são maiores que os dele. Aí reside o ponto mais difícil. Mas quando alguém tem poder tem também as responsabilidades dele.

E Rafael Greca? O ministro ainda não começou a sua campanha. Está se guardando para depois que a campanha para a prefeitura de Curitiba tenha se definido. Quer o governo do estado mais que qualquer coisa. Vai brigar cabeça a cabeça. Terá de desestabilizar o acordo Álvaro-Lerner. Terá que mobilizar a bancada federal do PFL a seu favor, o que já vem conseguindo com êxito. Terá de convencer Antonio Carlos Magalhães ( não imaginem que o senador baiano nada tem a ver com a política do Paraná) que um tucano no meio dos pefelistas, em tempos de déficit de prestígio do governo Fernando Henrique, é uma roubada. Terá que dividir o PFL e recompô-lo depois. Terá de mover muitos obstáculos. Mas isso ele consegue. Saiu de minúsculos 32 mil votos como deputado estadual para a prefeitura de Curitiba, em 92. Nada impede que chegue em 2002 ao Palácio Iguaçu, agora com 230 mil votos como deputado federal eleito. Um palpite aos analistas: os azarões podem chegar na frente.