Um jornal generoso com o Paraná
Marilena Braga

A imprensa, acuada durante quatro anos pela democracia autoritária, começa a ter sua credibilidade restaurada. Livre das amarras do Real, que precisava ser defendido até ao preço da informação fragmentada, os meios de comunicação pulsam com mais oxigênio. Os resultados , no caso do Paraná, são consagradores. Foi o que aconteceu com o jornal Gazeta do Povo, homenageado na Câmara Federal, na última quinta-feira, dia 27 de maio, por toda a Casa, que abriga 503 deputados federais. A bancada federal paranaense se uniu em torno dos 80 anos da Gazeta , uma data já bastante comemorada, mas ainda não nacionalmente .

No dia 27 nada faltou para que o diretor-presidente do jornal, jornalista Francisco Cunha Pereira Filho , constatasse a suprema responsabilidade do jornal que dirige desde 1962. Como jornalista, durante 25 anos formando opiniões dentro do estado, não tenho como negar que a Gazeta do Povo é o jornal da expressão genuína paranaense. Com uma linha editorial linear, durante muitos anos foi um receptor de press-releases. Sua cobertura política e econômica refletiam a incerteza entre o lucro e a notícia. A confusão foi desfeita com uma nova filosofia implantada , em que todos os segmentos da notícia ganharam espaços próprios , libertos de vínculos políticos. Isso só fez aumentar o respeito que o leitor já devotava à Gazeta.

E por que um jornal octagenário se impõe tanto, a ponto de os concorrentes dentro do estado policiarem os profissionais contratados, tentando evitar lobby de informação? Como observadora ­ na minha vida de trabalho dedicada à imprensa nunca pertenci aos quadros da Gazeta ­ fica fácil entender. A Gazeta se envolve nas causas do Paraná. As conquistas financeiras do estado passam pelo jornal , que dedica edições incansáveis nas campanhas deflagradas para fechar nas mãos do Paraná o que é seu direito. A Gazeta do Povo não faz apenas reporte da notícia. Ela é divulgadora dos interesses do estado, batalhadora pelo que é nosso direito. Esse compromisso e a aceitação de desafios são a marca mais valiosa do jornal. É o que o difere dos demais. A Gazeta do Povo não arrefece nos objetivos que persegue.

Meio poder não existe, disse eu uma vez, em título de artigo escrito a respeito do deputado Anibal Curi. A octagenária Gazeta do Povo sabe também que o poder para ser exercido precisa ser inteiro, comprometido, repartido, sim, mas nunca conivente com o prejuízo da população que guia e informa. Tem esse mérito a Gazeta do Povo. Reformada em sua linha editorial, com uma visão amplificada do futuro do jornalismo, é jovem, equilibrada e talentosa. Tem muitos defeitos. Perfeita fosse, seria abandonada por falta de empatia com um público leitor imperfeito.

Que prossiga na defesa ferrenha do Paraná e suas conquistas, inviáveis não fosse a persistência das páginas desse jornal , de onde surgiram a garantia de royalties sobre a energia gerada por Itaipu ( defendida pelo falecido deputado Maurício Fruet que transformou em lei o ressarcimento ao estado) ; a presença de Curitiba como roteiro permanente do Mercosul ( a capital do Mercosul foi para o Rio de Janeiro, mas o poder de fato ficou no Paraná, basta segurá-lo com as duas mãos e as letras impressas do jornal) ; o desvio do gasoduto Brasil-Bolívia pela região Norte do Paraná, retirando de São Paulo a autocracia sobre o projeto. A campanha da Gazeta incluiu o nosso estado no projeto, garantindo o desenvolvimento, em médio prazo, da região Norte paranaense.

Outras campanhas sistemáticas ainda estão sendo sustentadas: a segurança no aeroporto Afonso Pena , a garantia de que a Universidade Federal do Paraná venha a ser o símbolo de Curitiba , um marco na cidade ainda mais antigo do que a própria Gazeta do Povo. Dizem que o Paraná é um estado tímido. Não concordo. É avarento. Cioso demais de suas arrogantes propostas. Esse pecado capital a Gazeta do Povo não tem. Paralelo ao seu poder de informar , o jornal é generoso com as necessidades do povo paranaense. Por isso vende, é comentado e homenageado em âmbito nacional. Quando uma empresa sabe claramente onde quer chegar, não encontra barreiras nem inimigos consistentes. O mérito é do jornalista Francisco Cunha Pereira Filho. A homenagem é para todo o Paraná. Vida longa à Gazeta. O Paraná, sem ela, não seria o que é.