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< capa da edição de 30 de janeiro de 1999




Em crise, olho na tela e no papel

A cama está feita para o público leitor e telespectador brasileiro. Um pouco antes do anúncio da crise financeira brasileira uma grande festa, com direito à presença do presidente da República, inaugurou o novo parque gráfico da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Nesta semana, no auge da desorientação financeira , a mesma organização Globo inaugurou suas novas instalações em São Paulo, um complexo jornalístico que vai ampliar, mais ainda, o alcance e a liderança da Globo nas comunicações brasileiras. Outra vez, lá estava o Presidente. Os próximos dias vão ser de turbulência na vida financeira do país, mas já dá para prever que a imprensa, ao menos a que domina a comunicação de televisão e canais a cabo ( Rede Globo e Globo Sat ) estará solidária com o governo brasileiro em todas as suas investidas .

Comunicação sempre foi um grande negócio e não se critica isso aqui. Negócio é negócio. Só que a comunicação de entretenimento é uma coisa, e a de opinião e editoração é outra . Aí reside a responsabilidade e o compromisso.Não é hora de fazer pré-julgamentos. Apenas se sabe que, no Brasil, alguns veículos de informação são sempre governo. E outros, são da linha há governo, sou contra. Um país sem rumo definido, como o que temos agora, não pode ficar exposto a extremos . Essa falta de uma imprensa madura se reflete nos jornais, nas revistas , nos canais de televisão e invade agora até a comunicação a cabo, antes liberta, onde os comentaristas já se arvoram em críticos antecipados dos pronunciamentos de seus entrevistados.

Carl Bernstein ( ex-repórter do "Washington Post" que dividiu a fama pela cobertura de Watergate ­ causadora da renúncia do então presidente americano Richard Nixon ­ com o jornalista Bob Woodward ) é hoje um dos jornalistas mais prestigiados da imprensa mundial e deu entrevista há dois anos aqui no Brasil, no programa Roda Viva , da Band , sobre o lançamento de um livro contando a vida e os bastidores do poder do Papa João Paulo II ( era a época da visita do Papa ao Brasil). Pois bem. Disse Bernstein, ao ser perguntado, que o melhor que faz um jornalista é ouvir. Se ele está entrevistando alguém, o importante é o que diz o entrevistado. Deve-se dar a ele todas as chances de expressar seu pensamento. O repórter é mero instrumento para o repasse do pensamento alheio. Ouvir é a lição .

Contrariando o experiente jornalista americano, no Brasil a imprensa só ouve grampo. Fundamentalmente isso. Os arapongas criam notícias, e, pior, não dão continuidade a elas. Foi o caso da Folha de S. Paulo - tão reverenciada na sua bilis contra tudo e todos - que denunciou a barganha de votos para a reeleição do Presidente e deixou a peteca cair, perdendo de propósito uma partida que poderia ter mudado o encaminhamento das questões políticas da época. Mas a Folha é a Folha, e quem ousaria dizer , ou acreditar, que seu negócio é tão negócio quanto os outros?

O lamento, aqui, é por ter abdicado a televisão a cabo de sua imparcialidade. Na semana anterior, a jornalista Délis Ortiz , improvisada em âncora de um programa de entrevista no Canal Globo News , só faltou enfiar palavras na boca do governador Espiridião Amin, de Santa Catarina. Afrontou sem qualquer delicadeza um deputado petista de Minas - que se comportou com serenidade, ainda bem - e buscou na ministra da Administração , também presente no debate, uma aliada. Que papelão. O mesmo sobrou para a esforçada Monica Wadevogel ( será que se escreve assim ? ) que foi capitanear, no mesmo canal a cabo, o programa N de Notícias, no lugar de Carlos Tramontina, em férias. Na maior cara dura ressaltou que o único jornal a noticiar em manchete a queda de Gustavo Franco do Banco Central foi o "O Globo". Fez isso na presença de editores de outros veículos, convidados para debater o comportamento da imprensa que se fez de surda antes da crise. Vitupérios .

Esqueceu a entrevistadora - e não tiveram seus debatedores coragem para esclarecer isso no ar - que a Rede Globo é , segundo indícios e pistas nada obscuras, co-administradora do Brasil. Casada com o governo , não pode depor contra o marido. E é claro que fica sabendo das novidades antes de todos. Sabe-se que entre os lençóis os segredos são revelados. Espera-se que o enlevo amoroso da comunicação suporte o peso do Brasil real em queda livre.





Carl Bernstein , famoso pela
cobertura de Watergate ,
está interessado agora em
escrever a biografia de
Hillary Clinton, mulher do
presidente dos Estados
Unidos. Contratou um agente
ara sondar as editoras. Precisa
correr com o projeto, pois
a imprensa americana dá conta
de que Hillary vai se candidatar
ao Senado no ano 2000,
possívelmente por
Nova Iorque.





Bernstein, um catador de
notícias, é ele mesmo fonte de inspiração para dois filmes
que ficaram clássicos : "Todos os homens do Presidente", com
Dustin Hoffmann ( que o retrata)
e Robert Redford ( encarnando Woodward), baseado no trabalho
de investigação e na pertinácia
dos dois repórteres para
elucidar o caso de espionagem
política que derrubou o
governo Nixon.





Em outro filme,
"A difícil arte de amar",
Bernstein é representado
por Jack Nicholson , numa
história que retrata sua
vida conjugal com a também
jornalista Nora Efhron
( hoje roteirista de cinema,
assinando o sensível
"Sinfonia de Amor" , entre
outros sucessos). Nora é vivida
por Merryl Streep e
"A difícil arte..." separa os dois
protagonistas . Como é final de
semana, vale conferir os dois
filmes. ( Aliás, os três.
"Sinfonia de Amor" vale pela
trilha musical - linda -
Tom Hanks e Meg Ryan e a
delicadeza do tema ) .É só pedir
na lista de catálogo das
locadoras.