A democracia indomável.
Monica Hirst

( Artigo traduzido e transcrito da edição de 01/02/99 do jornal Clarín, de Buenos Aires)

Observar o Brasil nas últimas semanas gera duas reações: perplexidade e preocupação. Navegar pelos motivos de cada uma dessas reações permite captar uma parte deste quebra cabeças que ainda está em plena etapa de configuração. É sabido que no mundo atual a superposição de pressões externa e interesses internos formam parte do cotidiano. O fenômeno da globalização, que provoca a erosão das fronteiras nacionais, se transformou em um tema unipresente, afetando os mais diferentes aspectos das sociedades contemporâneas.

Em momentos de crise a tendência é que essa superposição se torne tão intensa que se crê na ilusão de que o internacional e o nacional se convertem em uma única realidade.Entretanto, no caso brasileiro, não foi o que aconteceu. Gera perplexidade constatar que a vida política e econômica do Brasil está atada a duas dimensões de realidade que convivem sobre a base de canais tão precários de comunicação. A tensão entre globalização e governabilidade, tão comum no mundo atual, produz aqui uma notável zona de conflito.

Os pais da derrota

Nas principais praças financeiras internacionais e quartéis generais de instituições internacionais de crédito, a percepção que prevalece é a de que as instituições políticas da democracia brasileira , antes o Congresso e agora alguns governos estaduais, são as responsáveis pelos êxitos e fracassos da política econômica local.

Essa percepção foi agravada quando os governos estaduais da oposição politizaram as questões da federação ante a pesada carga de suas dúvidas, em grande parte originadas pelas exorbitantes taxas de interesses vigentes no Brasil nos últimos anos.

Estas são as causas das chamadas crises de credibilidade do país? Ao mesmo tempo, se estas são as explicações , não há nada que negociar ­ ou melhor dizendo renegociar ­ com as autoridades brasileiras, já que o que se discute não são os cálculos feitos na ponta do lápis sobre os números do ajuste fiscal , mas sim a realidade à qual esses números devem se ater.

Do lado da realidade brasileira o que predomina não é um questionamento sobre o caráter indomável da democracia brasileira , e sim a busca de uma coerência entre o exercício da representação e os reclamos da cidadania. Depois de um ano semirecessivo, a dificuldade do governo para ampliar a agenda política brasileira, além das novas medidas de ajuste, deixou um vazio que rapidamente foi ocupado pelas flamejantes forças políticas, recém chegadas ao poder.

Tanto a atuação do Congresso quanto a dos novos governadores de oposição criaram dilemas para o governo de Cardoso, sem sequer dar-lhe tempo para que comecasse a saborear o gosto de seu segundo mandato.

A força dos estados na configuração política brasileira representa um aspecto presente desde o início da vida republicana. A eleição de governadores de oposição em três estados de grande peso político e econômico ­ como são Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul ­ representam, a partir dos resultados eleitorais de novembro, um dado a ser incorporado, e não dramatizado pelas forças do governo.

Neste último período, a vinculação entre realidades externa e interna tem sido tarefa assinada pelas autoridades econômicas. Entretanto, como foi mencionado, os pontos de contato entre ambas são precários e de muita tensão.

Do lado externo, enfrentam o impacto de uma reversão de expectativas que reduz a disponibilidade de recursos e a confiança no país. No plano interno, as dificuldades encontradas pelo Executivo para recuperar seu poder de iniciativa dão margem ao crescente protagonismo de outras forças políticas, cuja responsabilidade é a de contribuir para a manutenção do equilíbrio e não a de definir os pontos de ação de um governo recém inaugurado.

Serão ainda mais delicadas as condições de convivência entre ambas as realidades , com vistas aos sombrios prognósticos econômicos previstos para o país nos próximos meses.


Monica Hirst é cientista política brasileira.