Entretenimento e arte, até que enfim
Roberto Zacharias

No país de Xuxas, Gugus , Ratinhos e "tchans", quem diria , ainda se pode assitir à cinema de qualidade e ouvir MPB da boa. Em termos de sétima arte tomo como exemplo "Central do Brasil", de beleza, humanidade e densidade perceptíveis mesmo para quem, como eu, não passa de um cinéfilo amador.



E até por não ser nenhum Rubens Edwald Filho, fugirei das análises complexas e das lembranças alheias , sejam elas de federico, de Ingmar ou de Gavras. Tampouco evocarei Glauber e o cinema Novo, Bressane , Nélson Pereira dos santos, Scorcese ou Coppola.. Direi, isso sim, que "Central "me submeteu a emoções as mais diversas, sequestando-me do dia-a-dia por cento e doze minutos. Apresenta um Brasil verdadeiramente cruel, desalentador, engraçado, perturbado e fascinante, anos-luz daquela pátria de Avenida Vieira souto e de um Nordeste de falsos sotaques, impsota pelo clã dos Marinho.

Ademais, conta com um elenco irrepreensível: uma Fernanda Montenegro mais Fernanda e mais Montenegro do que nunca, uma Pera deliciosamente madura de nome Marília, o sempre correto e sóbrio Otávio Augusto, a eficiente operária das artes Stella de Freitas, o craque Mateus Nachtergaele ( de Hilda Furacão e O que é isso, Companheiro? ) . Atuando com assombrosa desenvoltura entre tanta cobra criada, um estreante talentoso e cativante, Vinícius de Oliveira, o Josué, figura central da trama.

Já no que tange à música, a prova de que nem tudo está perdido é uma gravação do ano passado. Refiro-me ao tributo a Noel Rosa, prestado por Ivan Lins em dois CDs: Viva Noel I e Viva Noel II, da gravadoara velas. Por ser um dos proprietários dessa empresa fonográfica, Ivan pôde realizar um trabalho livre e solto , imune às concessões que os demais artistas são obrigados a fazer.

Por isso, é tão bela e completa a homenagem a um dos maiores compositores brasileiros. O extremo bom gosto e o esmero da obra começam no visual, com livretos em preto, os quais trazem, além de uma espécie de prefácio , de autoria de João Máximo, as letras das músicas e breve e oportuno histórico a respeito de cada uma delas.

Igualmente caprichosa a seleção das 35 ( trinta e cinco) canções de Noel e dos conviadados a dividir microfones e instrumentos com o anfitrião. Difícil dizer, por exemplo, qual o violão mais lindo: se o de Guinga em "Meu Sofrer", ou se o de Hélio Delmiro no lendário "Último Desejo"( Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo...)

E o que falar dos vocais, então? Os registros de Ivan cantando com Emílio Santiago(Até Amanhã) , Leila Pinheiro( Verdade Duvidosa), Nana Caymmi ( Feitiço da Vila), Caetano Veloso( Cidade Mulher), Chico Buarque e Nó em Pingo D'Água ( Cansei de Pedir) são, no mínimo, emocionantes. A minha preferência, contudo, recai sobre a gravação "Pierrot Apaixonado", cantado à capela por Lins e o grupo Boca Livre.

De observar que o dono da festa também não faz feio nas interpretações solo, "Três Apitos", "Gago Apaixonado"e "Onde está a Honestidade?"Vale conferir, ainda que para lembrar que nem só de danças da bundinha vive a Música Popular Brasileira.

 
Roberto Zacharias é advogado e compositor .





Noel Rosa
O Poeta da Vila.





Web-site Oficial do filme
Central do Brasil.
www.centraldobrasil.com.br