O lamento dos irresponsáveis
Marilena Braga

O Presidente da República deixou de ser notícia. Depois de cinco anos de exposição extrema, a estagnação da economia e a queda da moeda brasileira emudeceram o Presidente. Mas para quem acompanha os noticiários, uma linguagem curiosa brota hoje da boca de seus auxiliares. A crise do dinheiro nacional, com o dólar subindo vertiginoso ­ a imprensa americana já publicava, em agosto do ano passado, que em janeiro ( este mês) o dólar fecharia em dois por um ­ põe ministros , deputados governistas e porta-voz da Presidência se referindo à crise como "essa aí", "uma coisa", e o próprio ministro da Fazenda, Pedro Malan, diz que a crise é "uma situação com que vamos ter de lidar".

A moeda Real, antes amiga de toda a equipe econômica e dos líderes no Congresso e apoiadores de plantão, passou a ser considerada uma palavra quente demais para todos. Está sendo evitada, tratada como espúria e traidora. A estabilidade da moeda fazia a festa de todos, somando prestígio político. Agora perderam todos a intimidade com ela. Fica o Real para ser defendido pela própria população, que faz uso dele. O ainda ministro da Fazenda acha que a instabilidade vai durar , não é "coisa"para ser resolvida em poucos dias. A população não quer que dure. Tem medo de pagar mais caro por consumo básico . Não assume, também, a cultura da inflação. Essa, é própria dos governos.

No comportamento efetivo dos brasileiros, cultura da inflação não existe. Se para a classe administrativa e política a queda da moeda brasileira representa um fracasso e o enfraquecimento do poder, para a população do país o Real é a única moeda que conhecem. O dólar é restrito a poucos brasileiros e não serve de argumento para a feira, o supermercado, escola ou combustível. Dólar, para os brasileiros, é como fantasia que admiram de longe. Só pode haver cultura inflacionária com conhecimento de uma economia alternativa. Esse conhecimento quem tem é o governo .

A grande população brasileira passou os cinco anos de bonança do governo Fernando Henrique contando moedas. Planejando e programando gastos. Atuando, familiarmente, para que o dinheiro desse certo. Acreditou nisso e reelegeu o Presidente. Está a população menos desnorteada do que os que fazem parte do governo e gozavam dos resultados de suas irresponsabilidades. Na esteira do Real a administração federal, e as estaduais, erraram a medida de seus gastos. Se queixam agora como escolares gazeteiros, e só vivem dizendo que os outros esqueceram de fazer a "lição de casa". Se um governo, se os responsáveis pelo Estado , ainda estão no nível escolar, deveriam ter avisado a população e pedido ajuda nas contas de matemática. Ninguém melhor do que o povo para fazer boas contas, até de cabeça.


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