Lembrando Paul Newman e Caetano
Roberto Zacharias

Nesta semana, revi "O Veredito" (The Verdict), de 1982, dirigido por Sidney Lumet e roteirizado por David Mamet.

O filme traz Paul Newman como Frank Galvin, advogado decadente e beberrão, que se vê, de uma hora para outra, diante da causa de sua vida, tão árdua e espinhosa quanto gratificante e apaixonante.

Ao defender uma vítima de erro médico, Galvin bate de frente com a arquidiocese mantenedora do hospital onde ocorreu a imperícia, e tem de enfrentar o renomado e inescrupuloso advogado Edward J. Concannon, vivido pelo grande James Mason, e o parcial juiz Hoyle (Milo O'Shea). Ao lado do nosso herói, apenas o leal colega e amigo Mickey Morrissey, desempenhado com correção por Jack Warden*.

Em suma, trata-se de mais um embate de Davi contra Golias nas barras de um tribunal, mas nem por isso "O Veredito" peca no quesito originalidade, visto que nos agracia com uma trama muito bem amarrada, uma direção de mão firme, um cem número de reviravoltas e um elenco afinado, no qual também se destaca a exótica Charlotte Rampling, como Laura Fischer.

Por falar em cast, Paul Newman concorreu ao Oscar pelo papel do heróico advogado, mas, injustiça das injustiças, os chamados Velhinhos da Academia acharam por bem não premiá-lo.

* Ao longo de sua carreira, Jack Warden parece ter se especializado em viver nas telas o boa-praça, o braço-direito do good guy, do amigo de fé, irmão, camarada (como diria "O Brasa"). Neste filme, ele está para Paul Newman, como está para Sean Connery em The Presidio, para Al Pacino em And Justice for All, para Jon Voight em The Champ, para Robert Redford e Dustin Hoffman em All The President's Men, para Robert DeNiro em Night and the City etc.., ou seja, sendo o ombro amigo do mocinho.

2. Agora, mudando radicalmente de assunto: se cada estupidez proferida ou perpetrada garantisse um alqueire, os responsáveis (?) pelo programa Pânico, da Joven Pan FM, teriam mais terras do que aquele paranaense que foi capa de uma revista semanal recentemente.

3. Para terminar, seguem as letras de dois dos mais recentes sucessos de Caetano Veloso:

Sozinho
(Peninha)

Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!
Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém
Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?
Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora
Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

 

Você não gosta de mim
(Caetano Veloso)

Você não gosta de mim
Não sinto o ar se aquecer ao redor de você
Quando eu volto da estrada
Por que será que é assim?
Dou aos seus lábios a mão
E eles nem dizem nada
Como é que vamos viver gerando luz sem calor?
Que imagem do amor podem nos oferecer?

Você não gosta de mim
Que novidade infeliz
O seu corpo me diz
Pelos gestos da alma!
A gente vê que é assim
Seja de longe ou de perto
No errado e no certo
Na fúria e na calma
Você me impede de amar
...E eu que só gosto do amor
Por que é que não nos dizemos que tudo acabou?
Talvez assim, descubramos o que é que nos une
Medo, destino, capricho ou um mistério maior
Eu jamais cri que o ciúme nos tornasse imunes ao desamor
Então, por favor, evite esse costume ruím

Você não gosta de mim
É só ciúme vazio
Essa chama de frio
Esse rio sem água
Por que será que é assim?
Somente encontra motivo pra manter-se vivo
Este amor pela mágoa
Então, digamos adeus
E nos deixemos viver
Já não faz nenhum sentido eu gostar de você


Roberto Zacharias, 42 anos, advogado e compositor.




Paul Newman